Isto aconteceu há muitos anos. Eu ia a conduzir numa rua que atravessava um bairro degradado e senti um problema qualquer na engrenagem do carro, talvez um pneu furado, de modo que parei e saí para ver o que se passava. Embora não perceba nada de automóveis, estendi-me no chão e espreitei debaixo. Depois, olhei para trás e avistei um carro da polícia que se aproximava devagar e pensei: Os gajos vão me chatear por causa disto.
Não sei porquê, mas achei que o meu comportamento era ilegal e afastei-me, avançando por um baldio adentro. À distância notei que, afinal, o Ford Ka estava impecável e até brilhava mais do que o habitual, ao passo que o carro da polícia seguiu viagem sempre devagarinho rua adiante.
Eu estava, de facto, numa zona bastante degradada da cidade, mas sentei-me no chão, no meio do mato, ao lado de um indivíduo que já estava lá sentado. O tipo estava a afiar um pau com uma navalha. De cada vez que pressionava a lâmina contra a madeira, eu ouvia um som sibilante e via uma apara saltar no ar, como se aquilo fosse a banda sonora e o vídeo clip do momento e era um momento de tráfico de medo, pensei, isto é puro tráfico de medo, pensei.
Entretanto, um outro indivíduo aproximou-se por trás e disse:
– Amigo, dá-me a carteira.
O que estava com a navalha olhou para ele e ambos sorriram.
– Olá Jorge! – Disse o da navalha e o outro respondeu: – Olá Jorge!
Eram amigos, ainda por cima com o mesmo nome, e eu senti que estava perdido.
O novo personagem veio ter comigo, sempre a sorrir, um sorriso malicioso. Disse que estava a brincar. Estendeu-me a mão para me cumprimentar e pediu-me um cigarro.
– Não tenho cigarros – respondi.
O indivíduo estava sujo, a roupa era velha, rota, andrajosa e ele cheirava mal dos pés à cabeça, cheirava a rato podre e isso fez-me pensar no estado do Mundo. Não sei porquê, mas aquele cheiro nauseabundo e a gentileza manhosa com que se dirigiu a mim fez-me pensar no estado do Mundo e, de repente, fiquei triste por isso.
A mão que me estendeu era encardida e nojenta. As dobras dos dedos e as linhas da palma eram fios negros de sujidade e eu pensei nos rios que atravessam o lado obscuro da alma humana, mas, ainda assim, estendi-lhe mão e saudei-o, seguramente movido pelo medo, o mesmo medo que me acompanha desde que viajo sozinho na vida.
– Dá-me lá um cigarro – insistiu.
Eu bati duas vezes com as mãos nos bolsos e disse:
– Não tenho cigarros.
Ele, porém, notou um volume no bolso do lado esquerdo, o lado que me segura e ampara, porque nasci canhoto e não acredito em nada, e disse com um cinismo descarado:
– Vê lá melhor o que tens aí.
Estava sempre a sorrir, o maldito.
Eu teimei:
– Não tenho cigarros. É tabaco de enrolar.
Disse isto e fiquei cheio de vergonha, pois é o tipo de argumentação que toda a gente usa para salvar a pele e dar cabo do Mundo.
– Deixa-me lá enrolar um – disse ele. – Eu tenho mortalhas. Dá-me só o tabaco.
Tirei o pacote do bolso e ele agarrou-o com a mão ensebada, a mão direita. Tirou um punhado de tabaco, que me pareceu excessivo, e pôs-se a preparar o cigarro.
– Gosto de cigarros gordos – disse ele e devolveu-me o pacote e o pacote vinha impregnado daquele cheiro agoniante, cheiro a rato podre. Depois, apertou-me a mão em jeito de agradecimento e despediu-se, dizendo que não estava para aturar a polícia. O tipo da navalha também se levantou e foi-se embora.
Eu olhei para a estrada e vi o carro da polícia que se aproximava outra vez devagarinho. Parou. Um dos agentes saiu.
– Tudo bem por aqui? – Perguntou.
– Ofereci um cigarro àquele gajo, só isso – respondi.
– Tenha cuidado! – Disse o polícia. – O Mundo está cheio de pessoas perigosas.
– Mais perigoso ainda é ter medo delas – respondi, insolente.
De repente, percebi que estava a cheirar a rato podre e pensei que era um bom pretexto para deixar de fumar, pelo que atirei o pacote de tabaco para longe. Depois, fui lavar as mãos com sabão azul e, embora esta história seja verdadeira, o contacto com a água fez-me acordar...