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Artigo de Opinião

Presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz

7/01/2026 08:00

Este artigo, no início de um novo ano e de esperança renovada num mundo melhor, não poderia ter outro tema que não fosse a Venezuela. Não apenas porque o que aconteceu naquele país deixa antever o avanço de uma nova ordem mundial, na qual quem tem o poder avança para onde quer e como quer, mesmo que ao arrepio de tudo o que deveria nortear a política e os seus atores, mesmo contra a Lei Internacional. Mas o assunto Venezuela também é incontornável porque aquele país vive profundamente em nós, pela extensa comunidade emigrante que lá habita, e pelos muitos luso descendentes e venezuelanos que escolheram a Madeira como casa, porque já não encontravam no seu país de origem ou de acolhimento a paz, a esperança, a liberdade e condições de vida dignas.

A Venezuela tem razões para festejar a queda de um ditador, que não respeita eleições, que alegadamente mata e manda prender os seus opositores e que nunca teve o legítimo interesse do povo no centro das suas prioridades. Mas a Venezuela não tem, pelo menos por agora, razões para festejar um futuro sem sobressaltos e sem incertezas.

O regresso do imperialismo legitima todas as vontades, apetites e atitudes discricionárias, quer seja na Venezuela, na Nicarágua, em Cuba, no Panamá, no México ou até mesmo na Gronelândia. E o pior é que ninguém pode garantir onde irá parar esta avalanche imperialista. Estamos a assistir à História em direto, mas não estamos a ser testemunhas de um avanço democrático e civilizacional, mas sim de um retrocesso que assusta nas suas práticas e nos seus objetivos.

Trump capturou o ditador, mas tem deixado claro que as suas intenções podem não passar por aquilo que todos desejamos: a soberania da Venezuela, a instauração de um país livre, democrático, dono do seu futuro e dos seus recursos e capaz de responder aos anseios dos venezuelanos. Dizer isto não é sequer uma previsão, é a análise fria dos factos e do discurso após a captura de Maduro. O presidente americano tem revelado que a sua intervenção pode não ter os interesses da Venezuela e do seu povo no topo das prioridades, mas sim uma oportunidade para um “assalto” às riquezas daquele país, para negociar não num plano de igualdade, mas numa atitude de prepotência imperialista que não traz paz, nem progresso efetivo em direção a uma Democracia que se quer adulta e emancipada. O que prevalece, para já, é uma profunda inquietação.

A última coisa que os venezuelanos, os nossos emigrantes e as suas famílias precisam é de trocar uma ditadura por uma incerteza, uma ditadura por uma ação imperialista que coloca em causa a soberania da Venezuela e que é uma porta aberta para que a riqueza do país volte a estar ao serviço de interesses que não são os interesses do povo.

A questão da Venezuela não é apenas a questão da Venezuela, é de toda uma geopolítica que está a mudar em ritmo acelerado. A questão da Venezuela não é apenas a legítima celebração da queda de um ditador, é também a incerteza em relação ao que se segue. Até agora o que temos é a manutenção da ditadura anterior, visto que quem assumiu o poder foi a equipa de Maduro, enquanto Maria Corina Machado, símbolo da resistência dos Venezuelanos e Nobel da Paz, foi arrumada com uma tirada machista e misógina de Trump, de que é uma mulher simpática, mas que não inspira respeito.

Ou seja, Trump não apresenta uma atitude, nem tem um currículo democrático que deixe ninguém descansado. Por isso, abraço os venezuelanos e os nossos emigrantes, partilhando com eles a alegria de ter sido derrubado um ditador, mas também me junto a eles na inquietação e sobretudo na esperança de que o futuro seja muito diferente dos sinais que têm vindo a ser dados pelo presidente americano.

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