O Grupo Vita, nomeado pela Igreja para receber queixas de abusos e apoiar as vítimas, mostrou-se hoje disponível a continuar em funções, com “reformulação dos objetivos”.
“Estamos disponíveis para continuar este processo se entenderem”, afirmou a coordenador do grupo, Rute Agulhas, embora salientando que, “a haver alguma continuidade é preciso reformular os objetivos” do grupo, nomeado em maio de 2023 como peritos independentes para ouvir as denúncias e apoiar as vítimas.
“A continuar”, o grupo teria de ser reconfigurado para “trabalhar de forma mais próxima” das comissões diocesanas e das ordens religiosas
“Se o fim último é que as estruturas da igreja não só se capacitem”, mas “transmitam para fora segurança”, é necessário repensar o modelo, considerou a coordenadora do grupo.
“Não temos um contrato de trabalho a termo certo, fomos convidados a abraçar esta missão, fizemos uma planificação a três anos”, afirmou Rute Agulhas, na apresentação de um relatório sobre as atividades do grupo em 2025.
“Desde o início das suas funções, o Grupo VITA recebeu 850 chamadas telefónicas e foi contactado por 154 vítimas e sobreviventes, bem como por um agressor”, tendo sido “registados 43 pedidos de ajuda relativos a situações de violência que não se enquadram na sua missão”, pode ler-se no documento.
No total, foram identificados 34 pedidos apoio psicológico, sete pedidos de apoio social e cinco de apoio psiquiátrico.
As 86 vítimas e sobreviventes até agora escutados têm, em média, 55 anos, são maioritariamente do sexo masculino e solteiros e as situações ocorreram entre 1955 e 2023 e a primeira ocorrência sucedeu quando os queixosos tinham entre os 10 e os 11 anos.
As estratégias usadas pela pessoa agressora, na maioria dos casos sacerdotes (91,8%), incluem, sobretudo, abuso de autoridade, aproveitamento da relação de confiança e familiaridade, bem como engano, confusão e surpresa”, pode ler-se no relatório.
Até ao momento, foram recebidos 95 pedidos de compensação financeira, 11 dos quais “arquivados liminarmente”, e “91% dos pareceres foram já enviados à comissão responsável pela fixação das compensações”.
Nas conversas com a vítima, os psicólogos concluem que o “agressor utilizava frequentemente a religião como ferramenta multifacetada de manipulação”, com uma “justificação divina do abuso”, a “instrumentalização da culpa religiosa” ou “chantagem espiritual para o silêncio”.
“Há muitos casos em que não se consegue identificar a vítima”, exemplificou Rute Agulhas.
Em paralelo, foram identificadas “estratégias de manipulação emocional e normalização do abuso” e o que impediu a continuação das agressões foi o “evitamento da vítima” (53,3%) ou o “afastamento do agressor do local (9,7%)”.
Cabe também ao grupo VITA ouvir as vítimas que apresentaram pedidos de indemnizações que serão apreciadas por uma comissão nomeada pela hierarquia e, até ao momento, já foram entregues 91% dos pareceres.
O grupo destaca a “crescente recetividade e o envolvimento das diversas estruturas eclesiais, que têm demonstrado uma abertura progressiva ao diálogo, à formação e à adoção de boas práticas de prevenção e resposta à violência sexual”, elogiando a “disponibilidade e colaboração” por parte da hierarquia.
Para tentar combater os problemas, o grupo propõe uma “redução das assimetrias de poder”, a “reconfiguração da figura sacerdotal” e a valorização das vítimas, “para combater preconceitos e estigmas”, bem como uma “uniformização de estruturas” eclesiais que lidem com este tema.