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Artigo de Opinião

24/01/2026 07:35

«If an elephant has its foot on the tail of a mouse and you say that you are neutral, the mouse will not appreciate your neutrality».Desmond Tutu in Robert McAfee Brown (1984) in “Unexpected News”

Robert McAfee Brown foi um ministro da fé presbítero, americano, nascido há 105 anos.

Nas décadas de 50 e 60 do século XX, começou a escrever e publicar livros de temática religiosa, cristã, a partir de diferentes perspetivas. Era um estudioso, protestante e ecuménico.

Nos anos 70, quis promover o diálogo entre o protestantismo e o catolicismo. Pelo caminho, cruzou-se com a teologia da libertação, que se desenvolvia principalmente na América Latina. A ideia de um cristianismo dos pobres, libertador dos oprimidos, fascinou-o.

Encontrou aí um novo olhar, uma abordagem fresca, na mesma linha das comunidades cristãs originais e herdeira do Concílio Vaticano II. Um cristianismo empoderador dos mais fracos, a religião dos muitos anónimos, que, para além da libertação espiritual, se foca na libertação histórica, social e económica. Sem surpresa, tornou-se um dos seus principais divulgadores no mundo, a começar pelos Estados Unidos, ao publicar o livro “Gustavo Gutiérrez: Uma Introdução à Teologia da Libertação”.

Dos seus encontros com Gutiérrez e Leonardo Boff, surgiu a semente de dois dos seus livros mais importantes, ainda hoje (ou especialmente hoje) bastante atuais.

O primeiro é “Fazer a Paz na Aldeia Global”, de 1981, quando o conceito cunhado por Marshall McLuhan começava a popularizar-se, em que defende que os cristãos têm um compromisso moral com a paz global. Muito recomendado nos tempos que vivemos, em que parece ressurgir uma conflitualidade internacional umbiguista.

O segundo é um livro igualmente interessante, “Unexpected News: Reading the Bible with Third World Eyes”, no qual analisa dez passagens bíblicas à luz e em diálogo com cristãos de áreas do Sul Global, parentes pobres, mas numerosos, da humanidade.

Neste livro encontramos também o bispo sul-africano Desmond Tutu, vencedor do Prémio Nobel da Paz, pela luta contra o Apartheid e pela sua influência determinante, a par com Nelson Mandela, na transição democrática na África do Sul. E é neste livro que nos deixa uma pérola da sua acutilante sabedoria, num parágrafo do qual escolhi a (menos conhecida) segunda frase como citação de abertura para hoje, agora numa tradução livre:

«Se fores neutral em situações de injustiça, escolheste o lado do opressor. Se um elefante tem a sua pata sobre a cauda de um rato e dizes que és neutral, o rato não vai ficar contente com a tua neutralidade».

Nos últimos tempos deparo-me cada vez mais com situações em que encontro gente que, perante injustiças flagrantes, faz questão de não escolher.

Confesso que tenho alguma dificuldade em engolir esta falsa neutralidade, que, demasiadas vezes, procura apenas disfarçar (mal) o alinhamento com os mais fortes, contra os mais fracos.

Especialmente quando se trata de questões humanistas, quando está em causa a dignidade humana, quase prefiro os que, sem rodeios, dizem ao que vêm: pelo menos sei quem são e o que esperar.

Estamos perante novos desafios externos e internos que exigem posições claras.

Do meu lado, sabem com o que contam.

E é com a neutralidade. É com humanismo.

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