No fim de semana das respetivas presidenciais, no meio dos meus afazeres domésticos, pensei em voz alta: “Tenho que ir votar.” A frase saiu quase por instinto, mas foi o suficiente para despertar a curiosidade da minha filha mais velha, que perguntou: “Mãe, é obrigatório votar?”. Sem hesitar, respondi: “Não é uma obrigação, mas é um dever cívico.”
Mas a curiosidade não ficou por ali. Olhou para mim e lançou outra pergunta, daquelas que não vêm nos manuais: “E se a pessoa não souber em quem vai votar?”
Foi nesse momento que a conversa se transformou, sem aviso prévio, numa pequena aula de política, mas daquelas sem quadro, sem apontamentos e com muitas interrogações. Votar ou não votar? Para que servem, afinal, as eleições? E porque é que aquele gesto simples, feito em silêncio dentro daquela “cabine”, é tão importante para o futuro de todos nós?
Expliquei-lhe que não saber em quem votar ainda não é motivo para ficar em casa. Antes de se ir votar, devemos informar e ver no que é vai ao encontro com os nossos ideais. Votamos para escolher, mas também para participar, para dizer “estou aqui”, mesmo quando as opções não nos convencem por completo. E, se no fim persistir a dúvida, há sempre o voto em branco — que não decide por ninguém, mas diz muito sobre quem não abdica do seu lugar.
“A importância do voto? Ora, essa é fácil”, respondi-lhe. Antes do 25 de Abril, o direito de voto em Portugal estava longe de ser universal. Votavam sobretudo os homens, desde que soubessem ler e escrever ou cumprissem determinados requisitos económicos podiam votar. Mas a maioria da população — analfabetos, trabalhadores rurais, mulheres e jovens — ficava excluída de um processo que não era livre nem plural. O 25 de Abril trouxe não apenas eleições democráticas, mas a ideia fundamental de que a voz de cada cidadão conta, independentemente do género, da origem ou da condição social.
E se pensarmos bem, este tempo não foi assim tão distante. “O direito de voto foi uma conquista, arduamente alcançada”. E é nisto que me agarro! Votar exige reflexão, maturidade e responsabilidade. É a forma que temos de não deixar que outros decidam por nós.
As eleições presidenciais não servem apenas para escolher quem vai ocupar o mais alto cargo da República, mas também para nos obrigar a pensar e a refletir, nem que seja por uns minutos, no tipo de liderança, de valores e de bom senso que queremos ver representados. É nisto que devemos ter em conta quando formos agora votar para a 2.ª ronda.
Talvez por isso estas eleições não devam ser tratadas como um campeonato de clubes nem como uma discussão de café em tom exaltado. Mais do que cores partidárias, importa olhar para as pessoas: quem são, como pensam, se sabem ouvir e se compreendem que o cargo exige mais contenção do que protagonismo. Não é tanto o que prometem, mas a forma como se imaginam a exercer a função.
Num mundo cheio de incertezas, crises sucessivas e notícias que mudam mais depressa do que o tempo, o Presidente da República continua a ser aquela figura que se espera que traga alguma estabilidade. Mais do que palavras, o povo espera é ações!
No fim de contas, votar não é apenas escolher um nome no papel. É lembrar que o futuro não se decide sozinho e que ficar de braços cruzados nunca foi grande estratégia. Entre dúvidas, reflexões e até votos em branco, o importante é não abdicar do nosso lugar.
“O voto é a arma mais poderosa que temos numa democracia.” Já dizia Nelson Mandela.
Alexandra Nepomuceno escreve à segunda-feira de 4 em 4 semanas.