Nunca me identifiquei com uma visão utilitarista da política. A condição particular e individual não deve ser a forma primária de avaliar um projeto político. Existem valores e princípios éticos sobre a forma como nos organizamos em sociedade que não se sacrificam no altar da agenda política pessoal de alguns.
Critico a neutralidade de Luís Montenegro perante uma escolha que deveria ser instantânea vindo de alguém que se professa democrata: ficar em cima do muro não é opção nestes tempos conturbados, também a nível internacional. Dia 8 de fevereiro a escolha é entre o moderado António José Seguro, que procura unir os portugueses e respeitar a Constituição da República portuguesa, ou André Ventura que incita o ódio na sociedade portuguesa e que desde 2019 defende a extinção do cargo de Primeiro-ministro, ambicionando um regime puramente presidencialista. Quem acha que a presidência seria uma “prateleira” para Ventura adormecer e deixar de ser um empecilho à democracia, está completamente equivocado. Recorde-se o alerta efetuado pelo Diretor nacional da PJ durante a conferência de imprensa sobre o desmantelamento do grupo neonazi armado “1143”: os crimes de ódio racial aumentaram 7 vezes nos últimos anos. A extrema-direita quer subir ao poder para depois atirar o escadote democrático abaixo - não haja dúvida sobre isso. De nada vale uma espúria tentativa de apaziguar o Chega para garantir “estabilidade executiva” perante o caos emitido da lamparina da extrema-direita no nosso país e, particularmente na nossa região.
Mas critico igualmente aqueles que preferem esperar para ver o que os candidatos têm para oferecer à Madeira. Como se estivéssemos numa espécie de leilão dos últimos. Nesta 2ª volta das eleições presidenciais não existe oferta mais valiosa para Portugal - e com isso também à Madeira - que a defesa da democracia parlamentar liberal e das suas instituições plurais, e mesmo do próprio Estado de direito. Afinal, que autonomia pode existir sem democracia?
Colocar uma perigosa condicionalidade a estes princípios basilares do nosso sistema político, é até contraproducente para as próprias aspirações autonómicas. Que valor tem a palavra autonomia vinda da boca de um nacionalista? Promessas falsas de alguém que defende “três salazares” para o nosso país. Salazar, esse ditador que nem promoveu nem sequer pensou implementar qualquer estratégia de desenvolvimento da sociedade e da economia da Madeira. Bem pelo contrário. Reprimiu cruelmente as revoltas populares contra as suas políticas restritivas. Taxou a própria ousadia em ser madeirense durante o Estado Novo. Dar um voto que seja num movimento de extrema-direita ultranacionalista e racista é um insulto aos nossos antepassados que sobreviveram à colonia e aos séculos de subdesenvolvimento centralista.
Ao invés de só oferecer condescendência ou hesitação taticista, que se lute para responder ao protesto do voto da primeira volta na Madeira com políticas e práticas democráticas que melhorem a vida dos nossos concidadãos. Políticas que nunca veriam a luz do dia sob o manto da extrema-direita, como a história nos ensina. Políticas que só florescem num regime democrático robusto e plural que desejo para Portugal, e para a Madeira. Sistema esse que só tem um claro defensor para Presidente da República: Seguro.
Sugestão da Semana: ouvir o discurso desta semana de Marcelo Rebelo de Sousa no Parlamento Europeu, referente aos 40 anos de adesão de Portugal ao projeto de integração europeia. Proponho um breve exercício: imagine como qualquer um dos dois candidatos nos representaria internacionalmente e que consequências isso teria para o nosso papel multilateral no mundo. Tire as suas conclusões.