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Falta de memória sobre ditadura e colonialismo alimenta extrema-direita

JM-Madeira

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Data de publicação
21 Abril 2022
16:49

O investigador Álvaro Vasconcelos diz que ficou por fazer, no pós-revolução, "um trabalho de memória em relação à ditadura" e sobre "o racismo extremo do colonialismo português", uma lacuna que considera alimentar as "correntes de extrema-direita em Portugal".

"O que verdadeiramente não se fez, no pós-25 de Abril, foi um trabalho de memória em relação à ditadura", defendeu, em entrevista à Lusa, o investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra

Álvaro Vasconcelos participa hoje na abertura do Festival Transeuropa, que se realiza até segunda-feira, no Porto e em Valongo, e também no debate "Descolonizando Fronteiras", na Assembleia Cidadã e na homenagem a Maria Teresa Horta, no âmbito do evento.

Para o especialista em relações inrternacionais, há "muita gente em Portugal que ainda tem saudosismo do tempo da ditadura", porque não se lembra dos "crimes da ditadura" nem das "condições sociais, a miséria, a desigualdade, a violência contra mulheres, contra as crianças nas escolas e famílias, toda a violência enorme".

Se "não houve um verdadeiro trabalho de memória" em relação ao regime, "ainda menos sobre as colónias", frisa.

"A descolonização das mentalidades, a maneira como as pessoas viam - e ainda veem - o império português, o que era Portugal no mundo, aquilo que se dizia o salazarismo, a missão civilizadora de Portugal e do império português, o racismo extremo do colonialismo, nada disso foi objeto de estudo", considera.

Para Álvaro Vasconcelos, passou-se "de uma situação de ditadura para a democracia, fazendo tábua rasa sobre os crimes quer da ditadura em Portugal, mas sobretudo os crimes da ditadura em África e na Guerra Colonial".

É por isso, defende, que "correntes de extrema-direita surgem em Portugal, branqueando o seu passado colonial".

"Uma das particularidades da extrema-direita portuguesa é dizer que em Portugal não há racismo, nem nunca houve. Isso era exatamente o que dizia o salazarismo, que os portugueses não eram racistas, que não havia racismo em Portugal, que Portugal era pós-racial, a teoria do luso-tropicalismo, de um sociólogo brasileiro que apoiou a ditadura portuguesa [Gilberto Freyre]. Transformava os portugueses todos em mestiços, (…) para dizer que não podia haver império, descolonização, porque as colónias não existiam, eram parte de Portugal", observou.

O especialista considera, no entanto, que "havia uma prática racial violentíssima em África contra os africanos, era um traço da ditadura, e é hoje uma bandeira da extrema-direita portuguesa".

"Demonstrar o que era a ditadura e o caráter racial das políticas de trabalho forçado em África e quase de escravatura em que viviam os negros é absolutamente fundamental para combater a extrema-direita portuguesa, que está a crescer", remata.

O Festival Bienal das Alternativas Europeias Transeuropa, realiza-se até segunda-feira, no Porto e em Valongo com conferências, debates, oficinas, exposições e performances sobre o tema "descolonizar, descarbonizar, democratizar".

Álvaro Vasconcelos é investigador do CEIS20 da Universidade de Coimbra e coordenador do Forum Demos. Dirigiu o Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia/EUISS, entre 2007 e 2012, e o Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais de Lisboa, desde a sua fundação, em 1980, até 2007.

Lusa

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