Uma operação da Polícia Judiciária (PJ), realizada na quarta-feira, que desmantelou uma rede que introduzia anabolizantes em prisões, deteve três pessoas e constituiu dez arguidos, entre os quais dois guardas prisionais.
Fonte policial explicou à Lusa que a operação foi desencadeada “pela suspeita de que guardas prisionais estariam a ser utilizados para introduzir produtos proibidos”, nomeadamente anabolizantes, no sistema prisional, “mediante contrapartidas patrimoniais” e tendo por base uma relação de proximidade “que por vezes se estabelece entre guardas e reclusos” devido ao contexto de privação de liberdade.
A ‘Operação Gambito’, realizada pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção em Lisboa, Sintra, Leiria e Setúbal, que investiga suspeitas de crimes de tráfico de substâncias e métodos proibidos, associação criminosa, corrupção e favorecimento pessoal, deteve três homens em flagrante delito - ainda que um deles por posse ilegal de armas, facto lateral ao objeto da operação -, e levou à constituição de 10 arguidos, nove pessoas e uma empresa, tendo ainda sido realizadas 19 buscas domiciliárias e não domiciliárias, incluindo em dois estabelecimentos prisionais.
Segundo fonte policial, um dos estabelecimentos visados localiza-se no distrito de Lisboa, outro no distrito de Setúbal.
Foram ainda apreendidos “uma elevada quantidade de substâncias proibidas, (...) duas armas de fogo, duas carteiras de criptoativos contendo 150 mil euros, 26 mil euros em numerário, uma viatura de alta cilindrada, além de diversos elementos probatórios de extrema relevância para a investigação, tanto em suporte físico, como digital”, precisou a PJ em comunicado.
Um dos arguidos, detentor da carteira de criptoativos apreendida, é um “grande importador” de anabolizantes, que têm origem sobretudo na Bulgária, mas também na Ásia, nomeadamente China e Índia, adiantou a fonte policial, que adiantou que o esquema montado para a importação das substâncias proibidas incluía ainda a “colaboração ativa” de uma empresa transportadora internacional.
Segundo a mesma fonte, funcionários dessa transportadora estariam ao corrente das identidades falsas criadas por este arguido para receber as encomendas, sabendo sempre que essas falsas identidades correspondiam, na verdade, ao importador e entregando as mercadorias no destinatário correto, com residência no concelho de Leiria.
Entre os detidos encontram-se companheiros de reclusos que, durante as visitas, entregariam as substâncias proibidas, e também o companheiro de uma visada na investigação, detido por posse ilegal de armas, encontradas durante as buscas domiciliárias.
Os restantes arguidos não detidos, incluem, para além do importador de substâncias proibidas, outros elementos que compunham a rede criminosa de importação e distribuição destes produtos nos estabelecimentos prisionais, incluindo um ex-recluso.
A empresa constituída arguida pertence ao importador de anabolizantes, mas não seria usada no esquema criminoso de importação, explicou fonte policial.
O tráfico de anabolizantes e substâncias proibidas é considerada uma alternativa segura em relação ao tráfico de droga, uma vez que pode revelar-se tão lucrativa como o tráfico de estupefacientes, mas com uma moldura penal bastante inferior, entre um a cinco anos de prisão, explicou fonte policial, acrescentando que este produto é “extremamente valioso” no meio prisional.
A mesma fonte manifestou ainda preocupações com a dimensão que o consumo deste tipo de substâncias assume em meio prisional, classificando-a como “uma pandemia” com graves riscos de saúde, havendo muitos consumidores a “comprar gato por lebre”.
Os três arguidos detidos, portugueses e com idades entre os 39 e os 62 anos, são hoje presentes a tribunal para aplicação de medidas de coação.