MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Deputado

6/06/2026 08:00

Em tempos, dizia-me um agricultor que quem está perdido no alto não vê o que se passa lá em baixo. E foi precisamente isso que ficou demonstrado no recente debate parlamentar sobre agricultura. Do lado do executivo, propaganda, números cuidadosamente escolhidos e trabalhados para não deixar transparecer um setor que continua a sangrar.

O Secretário Regional veio ao Parlamento, como tem sido hábito, desenhar um cenário de abundância, fertilidade e prosperidade sem igual, uma terra do leite e do mel... Mas já diziam os antigos que a verdade é teimosa, e os números dos Recenseamentos Agrícolas não mentem. Dizem os dados oficiais que, em pouco mais de dez anos, perdemos qualquer coisa como 13% da Superfície Agrícola Utilizada. Mais de seis mil pessoas abandonaram o sector no mesmo período. Famílias que desistiram e que deixam explorações agrícolas para o mato e para os eucaliptos (um convite permanente para os incêndios).

Em todo um debate, nenhum governante se dignou a falar do aumento brutal dos custos de produção, dos combustíveis, dos fitofármacos, dos adubos. Ninguém fala da falta de mão-de-obra, da burocracia kafkiana para aceder a apoios, nem da quebra de rendimento em setores que foram durante décadas a espinha dorsal da agricultura madeirense: a banana, a vinha, a cana-de-açúcar.

Às queixas frequentes dos agricultores (em particular os da banana), o Governo apelidou de “folclore político”. É alarmante este regresso de tiques autoritários! Numa democracia que se quer saudável, cidadãos que trabalham a terra, que vivem da fazenda, que defendem o seu rendimento, são ridicularizados precisamente por aqueles que são pagos pelos contribuintes e que deveriam estar ao seu serviço. É inaceitável, mas é também bem revelador não só da ignorância sobre o que se passa no setor, como de quem, de facto, governa para quem.

O Secretário Nuno Maciel foi ainda mais longe, dizendo que não queria “agricultores de enxada”. Eventualmente, preferi-los-á de rato e teclado. Mas foi Miguel Albuquerque quem disse o verdadeiramente mais grave: que o abandono dos poios e das fazendas não é um drama - que “até é bom”. Menos terra cultivada é bom. Para quem? Para os agricultores que veem o seu rendimento desaparecer? Para as famílias que vivem do campo? Para o consumidor que, cada vez mais, tem de comprar o que vem de fora e consumir tudo o que passa... pelos Portos?!

Mas nessa mesma semana chegou-nos a solução milagrosa, pelo sempre subserviente grupo parlamentar do PSD que, como que a salvar o pescoço do amigo Governo, apresentou as estufas como resposta à falta de terrenos agrícolas na Madeira. Genial! Porque uma estufa, como toda a gente sabe, flutua no ar... não precisa de terra, não precisa de poio, não precisa de nada. Ou então a flutuar no Atlântico, quem sabe? Desengane-se quem acha isto uma estupidez. Chama-se a isto inovar! Um retrato perfeito da visão deste Governo.

Ironias à parte, vejamos os números concretos, porque são eles que contam a história real. A uva - a base do nosso Vinho Madeira - caiu 21% em apenas um ano. O número de viticultores continua a diminuir. Na banana, os produtores deveriam receber mais de um euro por quilo, para além das ajudas europeias. Em vez disso, a banana da Madeira está a ser vendida no Continente a 3,39€/kg, enquanto ao bananicultor chegam míseros 64 cêntimos. A GESBA paga hoje pela “banana extra” praticamente o mesmo que as cooperativas pagavam há quase vinte anos. Nas restantes categorias, paga metade. Metade do que se pagava há vinte anos. E há ainda a banana em bagos, perfeitamente aproveitável, a ser paga pela GESBA - empresa pública, recorde-se - a menos de cinco cêntimos por quilo. Menos de cinco cêntimos. Alguém consegue explicar isto?

Na cana-de-açúcar, o Governo anunciou um aumento de dois cêntimos por quilo. Uma esmola, num setor onde só o valor de venda de aguardente ultrapassa os cinco milhões de euros por ano. O Governo, como regulador, podia e devia fixar um valor justo. Mas optou por ser forte com os fracos.

E há ainda uma outra questão que não pode continuar a ser varrida para debaixo do tapete, a praga de ratos. O próprio Recenseamento Agrícola é claro quando refere que duas em cada três explorações registam ataques de ratos. São milhões gastos em raticidas que não funcionam, intervenções descoordenadas, cada município a agir por conta própria, sem qualquer estratégia integrada. O JPP apresentou um plano articulado entre Governo e autarquias. Foi aprovado em 2023. Nada foi feito. Foi aprovado novamente em 2024. Nada foi feito. O Governo ignora deliberadamente o que o Parlamento decide. Isso não é apenas mais um desrespeito pelo Parlamento, é um desrespeito pela população e uma ameaça real à saúde pública.

Os agricultores madeirenses estão fartos. Fartos de contar tostões enquanto ouvem falar de esquemas para o desvio de milhões. Fartos de subsídios usados para mascarar o que realmente se paga ao produtor.

Dos gabinetes do governo, talvez não se veja o poio. Mas nós vemos. E não vamos deixar de o dizer.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

João Gião é uma boa escolha para treinar o Nacional?

Enviar Resultados
RJM PODCASTS

Mais Lidas

Últimas