Seis meses após tomar posse, o Governo de coligação do primeiro-ministro liberal búlgaro, Kiril Petkov, foi hoje derrubado por uma moção de censura no parlamento.
A iniciativa partiu do GERB, o antigo partido no poder de Boiko Borissov, dos seus aliados das Forças Democráticas Unidas e ainda do Movimento pelos Direitos e Liberdades (que representa a minoria turca) e dos nacionalistas pró-russos do Vazrajdane (Renascimento).
O texto foi adotado por 123 deputados, enquanto 116 votaram contra num total de 240 lugares, anunciou o vice-presidente do parlamento da Bulgária, Miroslav Ivanov.
Após três eleições legislativas sucessivas em 2021, muitos búlgaros receiam que o país mergulhe numa complexa crise política e num período já muito complicado devido à guerra na Ucrânia e do recrudescimento da pandemia da doença covid-19.
Petkov, definido como um liberal pró-europeu e diplomado pela Universidade de Harvard (Estados Unidos) foi eleito com base num programa anticorrupção após uma década no poder de Boiko Borissov, líder do Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB, direita conservadora).
No entanto, a heterogénea coligação formada em dezembro e liderada pela formação de Petkov Continuemos a Mudança (PP) fraturou-se no início de junho após o partido "anti-sistema" Existe Tal Povo (ITP), liderado pela "estrela" mediática Slavi Trifonov, lhe ter retirado o apoio.
A moção depois apresentada pelo GERB e apoiada pela restante oposição censurava o executivo pelo "falhanço da política económica e financeira" num contexto de inflação galopante.
O primeiro-ministro agora cessante chegou ao poder na esperança de "transformar a Bulgária num país europeu normal", mas a guerra na Ucrânia comprometeu a sua estratégia.
Neste país eslavo dos Balcãs, de religião ortodoxa e tradicionalmente próximo de Moscovo, a guerra iniciada com a invasão russa de 24 de fevereiro acentuou as divisões internas e fragilizou o Governo.
Apesar da sua forte dependência da energia russa, Sófia não cedeu ao pedido do Kremlin para abrir uma conta em rublos para o pagamento do gás russo, que implicou um importante corte das entregas.
Uma situação que, segundo observadores locais, foi crucial para o início da atual crise.
"Os oligarcas búlgaros que recebiam comissões viram-se privados de rendimentos, um fator que agravou as tensões no interior da coligação e ainda entre os círculos empresariais e o Governo", considerou Ognyan Mintchev, diretor do Instituto de Estudos Internacionais sediado em Sófia, em declarações à agência noticiosa AFP.
"A ingerência russa na Bulgária é importante e numerosos meios são sensíveis a isso", acrescentou o politólogo Yavor Siderov, ao referir-se a "tentativas incessantes de desestabilização pela difusão de falsas informações".
A entrega de armas à Ucrânia foi outro dossier que motivou fissuras no executivo liderado por Petkov, com os socialistas búlgaros a recusarem firmemente responder aos pedidos de Kiev, ao contrário da maioria dos membros da coligação.
Outra fonte de discórdia consistiu no veto búlgaro ao início das negociações da Macedónia do Norte à União Europeia (UE), relacionado com contenciosos históricos e culturais.
A guerra na Ucrânia voltou a colocar na ordem do dia o alargamento da UE aos Balcãs, com crescente importância estratégica, e acentuou-se a pressão ocidental para que a Bulgária, Estado-membro comunitário desde 2007 - para além de pertencer à NATO -, levantasse a sua oposição ao veto.
Uma estratégia de aproximação iniciada por Petkov que acabou por dividir o Governo e motivar uma nova crise política num período crucial.
À semelhança das crises de 2021, a Bulgária deverá ser agora dirigida por um governo interino designado pelo Presidente Rumen Radev.
O chefe de Estado búlgaro é caracterizado como um homem sensível ao discurso do Kremlin e que sempre se opôs ao apoio militar do seu país à Ucrânia, ou ao levantamento do veto búlgaro sobre a abertura das negociações de adesão da Macedónia do Norte.
Lusa