Lá fora

Crescer na ilha tinha vantagens naquele tempo. É verdade que se sabia pouco do que acontecia “lá fora” e o que chegava vinha quase sempre com atraso, ou se calhar não, vinha no tempo que tinha de vir. Mas tudo era longe e distante e tão diferente da vida que vivíamos.  A previsibilidade dos dias e das estações do ano davam conforto e pouco espaço à incerteza. Por exemplo, havia dias forrados em que o sol não brilhava e os outros de sol mais quentinhos. As temperaturas eram amenas e oscilavam pouco, a presença de sol ou nuvens era o fator diferenciador dos dias que passavam. Na serra precisávamos de casaco, junto ao mar, nem tanto ou mais raramente. Não havia dias de céu azul e temperaturas baixas, isso era coisa de outras paragens lá longe, de que ouvíamos falar quando os filhos da terra traziam os netos, nascidos noutras paragens, para as férias de natal ou de verão e ouvíamos relatos do que era a vida “lá longe” no meio das brincadeiras.

Eles pareciam mais deslumbrados com a vida simples da ilha, onde era possível jogar à bola no largo do cemitério em relativa segurança (exceção para as canelas e joelhos), do que nós com os relatos de terras, onde se podia brincar na neve à porta de casa ou com praias de areia quase branca e palmeiras quase dentro de água. Se numa primeira fase prestávamos a atenção que a curiosidade aguçava, pouco depois voltávamos aos assuntos que realmente nos ocupavam a mente e o corpo: “Querem jogar à bola ou às escondidas?”. E não se pense que era pouco, porque não poucas vezes isto era decisão que dava amuo ou zaragata ou até a divisão de grupos, até nos esquecermos e brincarmos todos juntos outra vez. “Ao anel”, alguém dizia para desempatar e lá se jogava, embora os rapazes reclamassem sempre que esse jogo não tinha piada nenhuma, ainda que se divertissem às vezes mais do que as raparigas.

A vida era simples, como o inverno vir a seguir ao outono e o verão a seguir à primavera. Mas havia meses em que a chuva se instalava na imensidão dos dias cinzentos. O nevoeiro tapava a linha do horizonte e não deixava ver o mar que sabíamos ser porta aberta contra o isolamento confortável da frugalidade da ilha. Não tínhamos luxos, mas também não conhecíamos angústias. Tirando a desses dias em que a chuva não deixava jogar à bola, às escondidas, nem ao anel no largo do cemitério. Não havia brigas, grupos separados, zaragatas ou amuos. Havia a solidão dos dias fechados em casa, amplificados pelo vento que soprava entre os pinheiros, e a dúvida metódica se o sol voltaria às nossas vidas.