A balada do dinheiro ao vento

Às vezes fico triste por causa do dinheiro e, nessas ocasiões, recordo que durante toda a minha vida procurei formas de existir sem estar condicionado por ele. A demanda prossegue, com maior ou menor sucesso, conforme a época e o estado de espírito. Aqui vou eu. Para todo o efeito, ando sempre teso, ora muito, ora mais ou menos, ora bem mesmo, até porque nunca ganhei muito mais do que mil euros limpos por mês, nem sequer nos tempos áureos. Sou mileurista, pronto.

Por outro lado, não tenho vocação para os negócios e tão pouco para calcorrear caminhos alternativos rumo ao tesouro, onde se incluem (e com alguma frequência se cruzam) os da bandidagem e os da política. Não tenho sorte no jogo nem vagar para jogar e muito menos tenho fôlego e arte para lamber botas e bajular os senhores da fortuna. De modo que, em última análise, tenho vivido em consonância com o modo de vida que almejo. Ou seja, teso.

Se me acontecer agora um imprevisto, uma desgraça, uma doença, eu não tenho dinheiro que me valha, tal como no passado não o tive para concretizar tantos sonhos e vaidades e futilidades do jeito que queria e desejava. Contudo, nada ficou nunca por cumprir, nem imprevistos, nem sonhos, nem futilidades, nem desgraças, nem vaidades, nem mesmo doenças (felizmente não tive nenhuma grave até hoje, só gripes, diarreias e umas dorzinhas aqui e ali – ainda agora ando com uma no cotovelo, mas não é por inveja, é apenas porque me pus a fazer flexões para ver se ganhava músculo e lixei-me).

Além disso, vivi amores intensos e consegui percorrer uma boa parte do mundo, tendo voltado sempre de coração inteiro, embora às vezes despedaçado, são e salvo e… teso, claro! Sempre teso, graças a Deus! Mas também sempre disponível para prosseguir. A tristeza do dinheiro que agora me assalta decorre apenas do medo que tenho de perder a capacidade e o alento para seguir viagem.

À medida que envelheço e os dias passam mais depressa, volta e meia dou comigo sentado na beira da cama, perdido no escuro do quarto e no labirinto da insónia, ou então embasbacado como um tonto num bar cheio de gente, ou caminhando dez passos à minha frente durante um passeio solitário na Estrada Monumental, dou por mim assim, perplexo, apavorado, ansioso, desassossegado, a pensar que já perdi a força para rumar na direção da luz no estado em que me encontro. Hoje, por exemplo, 20 de janeiro de 2023, com apenas 160,35 euros na conta. Janeiro é terrível!

Até onde posso ir com esta quantia, raios me partam?!

Houve um tempo em que eu gastava menos do que isto por mês e estava em África, vejam só, estava lá no fundo da Zambézia, tão longe da minha terra, e mesmo assim comia três refeições por dia, tinha roupa, casa e cama para dormir e ainda sobrava algum para tomar uns copos ao fim de semana ou para jantar no melhor restaurante da cidade, um frango assado com batatas fritas, um prato de esparguete com cogumelos, um bife de porco panado com repolho salteado, e era uma maravilha, eu adorava aquilo, era uma aventura e quando o medo soprava dentro de mim vinha carregado de liberdade e o medo soprava tanto dentro de mim.

Agora, porém, assusta-me sobremaneira a possibilidade de perder o dom para ser feliz com tão pouco e, contudo, não me falta absolutamente nada, nada, mesmo nada. Tenho água, pão, vinho, amor e ar para respirar. Tudo o que tenho dá para tudo. Por isso, esta tristeza é um paradoxo e eu bem sei que os paradoxos alimentam o caos no mundo. Digo-vos: Esforço-me com afinco para não fazer parte desse filme de terror, mas, de facto, no fim há sempre uma conta para pagar.

E lá se vão os meus 160,35 euros…