O tempo duma vida

O presidente avançou para o púlpito instalado no jardim, tirou um papelinho do bolso e começou a falar. Primeiro dirigiu-se aos presentes, enumerando por alto os principais: Senhores secretários, senhor presidente da Câmara, ilustres agraciados. Depois partiu para o discurso propriamente dito, que começava mais ou menos assim:

– Hoje nós prestamos homenagem a pessoas e instituições que são exemplos para todos nós…

A partir daqui deixei de o ouvir, porque outro acontecimento, que decorria em simultâneo nas suas costas, captou a minha atenção.

Uma rapariga bonita e elegante, vestida como uma flor numa manhã de primavera, sentiu-se mal e foi levada para um canto à sombra. Sentaram-na numa cadeira, mas isso não surtiu efeito, pois logo a seguir estenderam-na no chão e o seu cabelo comprido tocou ao de leve na relva do jardim.

Alguém passou por mim apressado, com uma garrafa de água na mão, e eu pensei:

– Aposto que a miúda não come porque tem medo de engordar.

E verbalizei o pensamento, que era já uma sentença, dizendo-o a uma colega jornalista que estava ao meu lado, enquanto ao fundo várias pessoas prestavam assistência à rapariga. Ela continuava estendida no chão e eu pensei que a relva devia estar fresca e essa frescura haveria de a fazer sentir-se melhor, muito melhor, despertando-a de novo para o mundo e para a vida e para o esplendor da sua juventude.

Tudo isto – a intervenção do presidente e o desmaio da rapariga-flor, bem como o meu rápido e infundado veredicto sobre os seus hábitos alimentares – aconteceu em menos de dois minutos. Embora sendo um instante, é tempo mais que suficiente para que tudo tenha princípio, meio e fim. Só a morte é mais rápida, porque nunca tem pressa. O resto cabe inteiro aqui, nestes dois minutos, e o resto é apenas a minha vida.

O que ganhei, o que perdi, tudo o que vi e senti desde que trepei o berço e estatelei-me no chão, a dor esquecida, a dor vivida, os meus amores, as minhas viagens, a família e a saudade dos mortos, a casa do avô antigamente e a sua ruína no presente, tudo isto estava ali, enquanto o presidente falava e a beleza desmaiava e eu a julgava sem fundamento – as vezes em que chorei, as vezes em que ri, cada partida e cada chegada, as bebedeiras, o desgosto, a alegria em ziguezague, minha alma atormentada de tormentos nada, as coisas feias que fiz, a maldade e os maus exames, os preconceitos, a fúria, a raiva, tudo isto estava ali, enquanto o presidente falava e a beleza desmaiava e eu a julgava sem fundamento – a arte e a guerra, a arte da guerra, a política, a religião e o dinheiro, todos os assuntos a que me refiro usando palavrões e são muitos, os assuntos e os palavrões, raios partam, puta que os pariu, filhos da puta, e outros mais esclarecedores que aprendi na rua em miúdo, no princípio da imortalidade, as descobertas, os segredos, os sonhos, tudo isto estava ali, enquanto o presidente falava e a beleza desmaiava e eu a julgava sem fundamento – o medo e a solidão, esta minha solidão inexplicável, quase sem fim, o som dos meus passos no vazio, a tristeza e a felicidade transbordante, o dizer amo-te a quem amo, a sede, a fome, o desejo, tudo isto estava ali, enquanto o presidente falava e a beleza desmaiava e eu a julgava sem fundamento – a forma como a minha cabeça andou à roda, inebriada, quando me apaixonei pela Pat, o nosso casamento na Praia Formosa, a harmonia do dia-a-dia e a sua desarmonia também, a fé, o destino, o que foi dito, o que ficou por dizer e acima de tudo, sobretudo, todo o horror e toda a fortuna que a humanidade consumou durante o tempo da minha vida estavam ali, enquanto o presidente falava e a beleza desmaiava e eu a julgava sem fundamento.

A rapariga dava agora sinais de recuperação e já sorria.

– … Com esperança e com otimismo – disse o presidente.

E, de repente, concluiu:

– Muito obrigado.

Parei a gravação e verifiquei o tempo: 01:43 minutos.

O tempo duma vida.