A arte da fuga

O senhor Kayros, um tipo levemente esquizofrénico, e o seu amigo sociólogo Zaqueus M. Ribeiro encontravam-se num cruzamento no meio do nada à espera de transporte. As horas foram passando e não aparecia qualquer viatura nem vivalma, pelo que, com a aproximação da noite, o sociólogo Zaqueus M. Ribeiro decidiu improvisar um abrigo, seguindo os ensinamentos obtidos através dum documentário sobre os pigmeus do Congo, que tinha visto por acaso na TVE Canárias, quando era miúdo, há muitos anos.

 

O sarilho é que não dispunha de qualquer ferramenta, nem sequer um canivete. Mesmo assim embrenhou-se no capim, alto com mais de dois metros, e conseguiu fazer uma coisa parecida com a toca duma besta, da qual muito se orgulhou, como se tivesse construído um palácio. Depois, lembrou-se de procurar lenha para atear uma fogueira. Andou por ali a recolher galhos secos, amontoou-os, esfregou as mãos e, na hora de pegar fogo, descobriu que não tinha fósforos, nem isqueiro, nem nada para fazer lume.

 

– Azar – disse, desconsolado.

 

O senhor Kayros suspirou.

 

Ao cair da noite, meteram-se os dois na toca e o sociólogo Zaqueus M. Ribeiro disse:

 

– A partir de agora temos de andar sempre com uma faca de mato e uma caixa de fósforos.

 

O senhor Kayros, que naquele momento se achava num estado de não-existência, embora tivesse a garganta seca e sentisse frio no estômago, o que, como se sabe, são sinais evidentes de existência, respondeu:

 

– Foi um erro fugir de São Barnabé.

 

O sociólogo Zaqueus M. Ribeiro encolheu os ombros, como se São Barnabé fosse coisa do passado muito distante, e acrescentou:

 

– Também temos de andar sempre com bolachinhas para matar a fome.

 

O senhor Kayros insistiu:

 

– Foi um erro fugir de São Barnabé.

 

E o sociólogo Zaqueus M. Ribeiro continuou a falar como se São Barnabé não fizesse parte do mapa-múndi:

 

– Não seria má ideia andarmos também com uma panelinha para ferver água.

 

O senhor Kayros repetiu:

 

– Foi um erro fugir de São Barnabé.

 

O sociólogo Zaqueus M. Ribeiro disse:

 

– Uma barra de sabão azul também é importante.

 

O senhor Kayros retorquiu:

 

– Foi um erro fugir de São Barnabé.

 

A conversa entre o senhor Kayros e o sociólogo Zaqueus M. Ribeiro prosseguiu nesta toada durante horas, enquanto à sua volta se multiplicavam os misteriosos sons noturnos da savana e no céu ardiam, luminosas e distantes, as belas constelações do hemisfério sul.

 

Às tantas, quase ao nascer do dia, o senhor Kayros adormeceu, mas acordou pouco depois cheio de comichão. O sol entrava na toca e lambia-lhe descaradamente a cara. O senhor Kayros tardou uns cinco segundos a adquirir a consciência de si e da realidade e, quando isso aconteceu, estremeceu de horror, porque percebeu que estava sozinho. Saiu da toca aos gritos, como se tivesse enlouquecido do pé para a mão:

 

– Onde estou eu? Onde estou eu?

 

A mata despertava tranquila, ainda com partes mergulhadas na cacimba, e o cruzamento de caminhos estava quieto e silencioso, a terra vermelha brilhando como se fosse o sangue da solidão.

 

Desnorteado, o senhor Kayros decidiu procurar por si na mata, para cá e para lá aos gritos, cada vez mais perdido, cada vez mais esgotado, de modo que, a certa altura, esqueceu-se do que procurava. De repente, irrompeu no meio de uma aldeia miserável. As pessoas assustaram-se ao vê-lo surgir detrás das moitas, com a roupa rasgada, o cabelo desgrenhado, os braços e o rosto cheios de arranhões. As crianças começaram a chorar e duas mulheres mais afoitas tentaram enxotá-lo como se fosse um cão tinhoso.

 

– Suca! Suca! – Diziam as mulheres.

 

O senhor Kayros revirou os olhos e viu surgir diante de si um abismo medonho. Antes de desmaiar, disse:

 

– Eu sou o sociólogo Zaqueus M. Ribeiro.