Três vezes batata, uma vez amo-te

Há gajos armados em bons que não sabem dizer três vezes batata e outros nem sequer sabem dizer uma vez amo-te, mesmo à mulher que amam, seja ela quem for, a legítima ou a ilegítima, a mãe dos filhos, a prima, uma puta da rua, ou outra qualquer. Há gajos que não sabem chorar e outros que têm medo e vergonha de chorar, porque alguém lhes meteu nos cornos que isso é coisa de mulheres, de crianças e de maricas, e eles – coitados – levam o ensinamento a sério. Há gajos convencidos de que a sua glória reside na fraqueza dos outros e de que a vida se joga como num campo de futebol, entre quatro linhas, ao som de apitos, aplausos e insultos.

Há gajos que acham que a cabeça fica nos pés e o coração nos bíceps, porque, de facto, pensam com a sola das patas e sentem com a força dos músculos. Há gajos que confundem poder com sabedoria e ignorância com santidade, vinho com água, grito com palavra, violência com carinho. Há gajos cheios de testosterona e pelo no focinho que julgam ser Eros na cama, mas desconhecem na totalidade a superfície da mulher e mais ainda os pormenores da sua profundidade. (Neste caso, convém dizer, elas também não ajudam muito, porque são hábeis a fingir, fingem orgasmos, sorrisos, delícias, porque alguém lhes meteu na cabeça que tem de ser assim e a maioria respeita o ensinamento.)

Há gajos que cospem fogo e dizem ser dragões, mas têm pavor de lagartixas, fogem delas como o Diabo da cruz, despem-se em qualquer sítio ao sentir ou imaginar o seu toque e até se abicam por um poio abaixo se for caso disso. Há gajos tão destemidos e seguros de si que tomam o ciúme por divindade e decidem aprisionar a mulher da sua vida dentro de convicções doentias – mal a deixam sair de casa, olhar para o lado, vestir a roupa que quer, falar com a família, estar com os amigos – estabelecendo assim uma angustiante contagem crescente de tristeza e sofrimento, que tantas vezes acaba em crime e tragédia, pois são capazes de limpar o sebo a qualquer um, à mulher, aos filhos, ao cachorro, ao gato, ao próprio. Há gajos que, independentemente do berço e da sorte, são verdadeiros filhos da puta – não há melhor classificação para eles – são filhos da puta de sangue puro.

Há gajos que encaram o reflexo no espelho como a imagem da sua alma e elevam a vaidade à dimensão de espiritualidade, têm-na como o caminho mais curto e certinho para chegar a Deus, a via direta para a remissão dos pecados e obtenção da paz interior – louvado e perfumado seja Nosso Senhor, ámen. Há gajos que bebem veneno e transpiram insolência, baralham rancor com frontalidade e cobram coisas do passado a quem os enfrenta e desmascara, atiram-nas à falsa fé à cara dos outros e depois chamam graça à provocação, subtileza ao ódio, esponja à pedra. Há gajos que são egoístas e mentirosos porque estão convencidos de que o universo inteiro é mais pequeno do que eles e cuidam ser senhores do tempo e do espaço onde a sua vida miserável se desfaz em tiquetaque, segundo a segundo, até à morte e há outros ainda que vivem como heróis quando já estão mortos e ressequidos.

Puta que os pariu!

Toda esta conversa, meus amigos, é só para dizer que eu também sou um gajo mais ou menos assim, cheio de defeitos de fabrico, montes deles, descontando a parte das lagartixas e a do ciúme, pois nunca tive medo daqueles bichos e sou incapaz de sentir tal emoção, simplesmente sou incapaz. Por outro lado, também reconheço ter mais facilidade em dizer três vezes amo-te do que uma vez batata. Ba-ta-ta. Difícil…