Aprendizagens

Continuamos sem aprender nada. Enchemos o peito de ar, como se fôssemos os donos da vida e do mundo e de tudo aquilo que nos rodeia. Continuamos a passar por cima das liberdades de cada um, porque o que importa, verdadeiramente, é a nossa imagem no espelho. Continuamos a correr para sítio nenhum, por um momento de glória, por uma mensagem instantânea que é rapidamente esquecida.  Continuamos. Apenas porque.

Depois, de repente, como um ladrão que nos entra em casa, a vida muda: adoece-se, perde-se tudo, apaga-se a luz, morre-se. E não fica nada. Nem um grão de amor. Nada. Perdemos a vida a olhar para aquilo que só os nossos olhos conseguem ver. E de tanto olhar para o reflexo da nossa imagem, perdemos o jeito de olhar à nossa volta e de perceber a beleza que nos envolve e que nos contamina de luz. É que a luz dos outros faz brilhar a nossa luz, ao contrário do que continuamos a fazer, isto é, a apagar a luz dos outros.

Há mais de um ano que a História tenta dizer-nos da nossa fragilidade. E nós, nada. Continuamos cheios de nós, cegos de nós, cegos para os outros e para os milagres que cada manhã nos oferece. Continuamos. Iguais.

E a vida é tão fugaz! Um instante. E ainda não compreendemos que é aí que se situa a maravilha da nossa pequenez: em cada momento, é-nos dada a possibilidade da beleza dos agoras, sabendo (e isso já todos aprendemos) que – como diz o poeta – “tudo é foi”.

Talvez seja a proximidade do verão que me traz a estas linhas o carpe diem de Horácio ou o “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio” de Ricardo Reis, porque – e continuo a convocar o poeta: “(…) a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas”.

Quem passamos a ser, depois de termos visto o impensável acontecer – o mundo fechar as portas, a vida parar, a falta de respostas da nossa grande inteligência? Apetece-me dizer:

- Iguais.

E tenho pena. Iremos ainda a tempo do resto? De enlaçar as mãos?

Continuamos cheios de nós, cegos de nós, cegos para os outros e para os milagres que cada manhã nos oferece. Continuamos. Iguais.

 

gracaleonor@hotmail.com