Movimento Cultural de Miranda alerta para perigo de extinção da língua mirandesa

LUSA

O Movimento Cultural da Terra de Miranda (MCTM) alertou hoje para o perigo de extinção da língua mirandesa, já nos próximos anos, em resultado do “acelerado despovoamento” das localidades deste território, onde se fala este idioma.

“Há aldeias onde não nasce ninguém há cerca de 10 anos e, em média, o número de jovens caiu 25%, só nos últimos 10 anos. O despovoamento da Terra de Miranda tem de ser urgentemente revertido, eliminando-se as suas principais causas, em especial a destruição da produção agrícola ocorrida nos últimos 60 anos, em resultado de políticas profundamente erradas, que têm de acabar”, disse à Lusa José Maria Pires, membro fundador do MCTM.

Os membros do MCTM analisaram a evolução populacional na Terra de Miranda (Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, no distrito de Bragança), e chegaram à conclusão, após um estudo elaborado por este organismo, de que este território perdeu dois terços da sua população nos últimos 60 anos.

“Sem falantes nativos, as línguas morrem, com eles. Extingue-se um corpo social, uma cultura e uma história que só as palavras dessa língua podem contar”, justificou um membro dos membros, José Maria Pires

Segundo a análise do MCTM, “o fenómeno do despovoamento é mais grave nas aldeias onde se fala o mirandês”.

“As aldeias do Planalto são o berço do mirandês. A queda populacional, só em relação aos jovens é muito significativa, e este fenómeno é o caminho para a extinção do mirandês nos próximos anos”, vincou José Maria Pires.

De acordo com este membro do MCTM, “o mirandês é um património de Portugal e da Europa, e não apenas dos municípios de Miranda do Douro, Mogadouro e Vimioso, onde ainda se fala, e não se pode perder”.

Para a inversão deste processo de extinção do mirandês, o MCTM defende várias medidas para evitar “um corte geracional”, entre as quais a reforma agrícola do Planalto Mirandês, de forma a atrair mais pessoas a este território.

“A esta reforma demos o nome de Reabilitação Agrícola que permita ao Planalto Mirandês voltar a ser um dos territórios agrícolas mais produtivos do país como já foi no passado e deixou de o ser. As causas estão identificadas, havendo soluções que não são de muito difícil implementação e que temos de empreender para que haja uma reabilitação agrícola e populacional nas aldeias. Não há população sem economia”, enfatizou José Maria Pires.

Os membros do MCTM acreditam que “o Planalto Mirandês tem condições naturais para ser uma das regiões mais desenvolvidas e prósperas de Portugal, mas os erros do Estado e o silêncio e falta de ação dos políticos regionais e locais não o têm permitido”.

“A quebra da população é a consequência da quebra da economia com enfoque na economia agrícola. Por tudo isto, propomos uma reforma profunda no modelo agrícola e económico deste território que não tem custo para o Estado, apenas reformas legislativas que revertam os gravíssimos erros do passado aos quais o Planalto Mirandês foi submetido nos últimos 50 a 60 anos”, enfatizou.

Para MCTM, esta região poderá ser “muito próspera” apontando como exemplo, a existência de um efetivo pecuário com sete raças autóctones, ou na produção vitivinícola ou do olival.

“O que nós precisamos é de uma gestão fundiária que devolva à nossa agricultura a completividade que tivemos no passado e assim fixar população”, disse José Maria Pires do MCTM.

Para os responsáveis por este movimento cívico, é imperioso travar a queda abismal da população nestes concelhos do Planalto Mirandês para evitar a extinção da língua mirandesa e de outros fatores identitários e culturais deste território.

“O que está errado é o modelo agrícola empregue neste território que leva as pessoas a procurarem melhores condições económicas”, concluiu.