O medicamento é a tecnologia em Saúde mais custo efectiva. O aforismo – de que é a tecnologia em Saúde, que mais Anos dá à Vida, e mais Vida aos Anos, nunca foi tão real.
Os resultados positivos dos sistemas de Saúde e das suas políticas, são impossíveis de alcançar sem esta tecnologia. A diminuição da mortalidade, o aumento da esperança média de vida e a melhoria da qualidade de vida nos últimos anos da mesma, são de facto contributo inexorável do medicamento.
Encontramo-nos num momento particularmente interessante no que à medicação diz respeito, de facto, a conquista dos medicamentos verdadeiramente eficazes e com efectividade garantida, como por exemplo no sucesso mais visível, contra a obesidade, ou nos medicamentos de terapia avançada, mais do que nos transportarem para um cenário de esperança, colocam-nos num cenário de certeza na Ciência Farmacêutica, de que em 15-25 anos ou talvez menos atendendo à evolução tecnológica, estaremos munidos de um arsenal terapêutico que dará resposta em efectividade, a grande parte das necessidades em Saúde da população. Aqui coloco a ênfase na distinção técnica de Archie Cochrane de eficácia e efectividade, ou seja, eficácia refere-se à avaliação do sucesso da molécula em ambiente controlado, em ensaio, e efectividade a avaliação do sucesso da molécula em uso no “mundo real”.
Não obstante tal realidade futura, num mundo cada vez mais controlado pelo retorno financeiro, existem e existirão áreas de menor investimento, e algumas delas cruciais.
A resistência antimicrobiana é um problema sério de Saúde Pública, aqui concorrem vários factores, dos quais vou destacar:
- A má utilização de antibióticos, não utilizar durante o tempo prescrito, nem na forma prescrita (intervalos dos horários de toma), a forma de toma (ex: sem alimentos) utilizar para infeções não bacterianas (por exemplo gripe), recorrer à automedicação com as sobras da última toma, e claro a utilização em agropecuária.
- Os microrganismos serem darwinistas ao máximo, e a sua rápida multiplicação permitir mutações resistentes levando à sobrevivência do mais apto.
- Por fim destaco o parco desenvolvimento de novas moléculas.
Aqui detenho-me um pouco pois todos os cenários projectados são negativos, os da OCDE para Portugal referiam cerca de 40 mil mortes até 2050, a OMS mencionava 10 milhões de mortes ano em 2050, e mais recentemente um estudo publicado na revista científica The Lancet 39 milhões de mortes até 2050. Apesar destes cenários, o número de moléculas em pipeline decresceu de 97 em 2023 para 90 em 2025, sendo que apenas 15 destas são categorizadas como inovadoras, sendo que em 10 destas não há dados suficientes que garantam que não há resistência antimicrobiana e só 5 moléculas são contra pelo menos 1 das BPLL - lista de patógenos bacterianos prioritários da OMS (dados do report da OMS em 2 de outubro de 2025).
Fica o alerta para a necessidade de maior investimento para investigação e desenvolvimento de medicação nesta área basilar da Saúde, e também para um maior investimento em literacia em Saúde para a população.