Não tenho energia!

Quem aceita cargos políticos sabe que, com essa decisão, terá toda a sua vida exposta. Dados patrimoniais são declarados ao Tribunal Constitucional logo no início do exercício da função e o seu acesso é público. Todo o agregado familiar é igualmente exposto. No final dos mandatos, o regresso à profissão é, em muitos casos, condicionado e continua na mira do olhar público. Contudo, quem assume esse tipo de lugares, na lógica da transparência e do prestar de contas, aceita estas condições, porque acredita nos projetos em que se envolve e considera que serão uma mais-valia para o seu país, a sua região, a sua comunidade. Com este “pacote” associado à prestação de contas, vem igualmente o “direito” ao insulto e ao manchar do seu bom nome, sem que possa fazer algo contra isso.

O que é que as máquinas partidárias e as agências de comunicação têm feito quando os seus partidos perdem as eleições? Viciam o uso das ferramentas do prestar de contas e recorrem sistematicamente a denúncias anónimas ao Ministério Público ou ao Tribunal de Contas, assim como às ligações que possuem a órgãos de comunicação social, lançando anátemas e queimando percursos políticos. Objetivo? Desacreditar instituições públicas, derrubar executivos que não são da sua cor partidária, para ver se desta forma ganham o que perderam nas urnas. Consequências? Criar um clima de suspeição generalizado que faça com que a opinião pública conclua que toda a classe política é igual e corrupta.

A quem serve este clima que mina a democracia e os processos participativos nas decisões públicas? A quem pretende eliminar a democracia e afirma ser antissistema e diferente de quem tem um percurso na construção da liberdade e da democracia, lançando simultaneamente suspeitas sobre todas as pessoas que exercem cargos públicos (exceto elas, claro). Vejam o que aconteceu nos EUA e no Brasil. Que caminho desejavam esses criadores de instabilidade e de condenação sobre quem exerce a política? Recordem agora as afirmações de várias forças políticas em Portugal e de quem não clarifica se se juntará a elas caso necessite desses votos, mas que recorre igualmente a estes meios populistas e desestruturantes do sistema democrático.

No nosso país, assistimos a um ataque violento, intencional e estruturado contra a democracia. Quem a ama deve ler e debater todos os dados com atenção, conhecimento e espírito crítico, não engolindo o isco que alguns pretendem que nós furiosamente mordamos. Não esqueçamos que, contrariamente ao que se pretende afirmar, não somos todos iguais. Por muito que nos pretendam colar aos que efetivamente têm motivos para ser investigados, a maioria das pessoas no exercício da política é constituída por pessoas sérias e competentes.

Compreendo muito bem Jacinda Ardern quando afirmou “Não tenho energia”, “Sou humana”, justificando a sua saída ao fim de vários anos como 1ª ministra. É isto que se pretende? Que quem tem vontade e projetos para um país abandone o percurso político e o entregue a quem pretende derrubar o sistema, como claramente afirma? E o que é que cada uma ou cada um de nós tem feito para que a democracia continue a prevalecer? O que temos feito para evitar que o ambiente político leve pessoas boas e competentes a querer sair da política?