Cheirar tabaco

“Vai uma pitada"? foi uma expressão que nos meus tempos de criança ouvi muitas vezes. Surgia no meio de conversas sobretudo entre mulheres. E surgia porque pelo meio existia um vício: o de cheirar tabaco.

Se o cigarro era atribuído aos homens, o cheirar tabaco era na altura coisa de mulheres.

Habitualmente eram elas que cheiravam tabaco, se bem que alguns homens também não se faziam rogados para experimentar uma pitada.

O tabaco de cheirar pelo menos na zona rural das minhas origens, era muito consumido pelas mulheres. Eram sobretudo as de mais idade. Recordo-me da minha tia pedir-me para ir à venda comprar tabaco de cheirar.

Eram maços pequenos mais ou menos do tamanho de um sabonete que continham lá dentro um pó amarelo que pelos vistos era muito apreciado.

Depois de entregar o produto à minha tia, ela abastecia um pequeno frasco de alumínio que lhe chamava de boceta. Este era colocado num bolso que existia na parte interior do vestido e na falta de bolso era embrulhado no lenço de tecido e preso com um alfinete.

Não raras as vezes assisti a esse ritual.

No meio duma conversa onde se colocava a bilhardice em dia, lá vinha o levantar de saia para avançar uma pitada de tabaco moído. As presentes metiam os dedos dentro do frasco e tiravam uma porção de pó amarelo que depois iam levando ao nariz.

Tinha dias quando as mulheres se juntavam e alguma se queixava de não se sentir bem, lamentando dores na cabeça ou a cabeça estonteada, logo alguém dizia que cheirar uma ou duas pitadas de tabaco de seguida aliviava a cabeça, pois acreditavam que o tabaco em pó tinha efeitos terapêuticos. Após a utilização a mulher espirrava e afirmava sentir-se muito melhor.

Imagino que este cheirar de tabaco fosse muito prazeroso e até viciante.

Não sei que tipo de contraindicações tinha, mas pelos vistos o prazer que dava compensava qualquer efeito secundário.

Assim a olho nu, uma das coisas que observava, era que este ritual de cheirar tabaco deixava marcas. Marcas amarelas, nos dedos, mas sobretudo no nariz. Resultado disso eram também as marcas que ficavam nos lenços com que as mulheres se assoavam. Ficavam todos amarelos. Havia até quem utilizasse a parte interior dos vestidos para limpar o nariz.

Com o passar do tempo o tabaco em pó deixou de ser utilizado e a boceta passou a ser uma relíquia.