Os caça likes

A Joana foi convidada para fazer parte de uma equipa candidata às eleições locais. Como revê-se nas políticas seguidas por essa candidatura, aceitou de imediato e começou, como é natural, a interagir com as publicações dessa força política, fazendo algumas partilhas e colocando likes nessas mesmas publicações.

Não sendo uma candidatura afeta aos partidos que estão à frente dos destinos dessa Região, e tendo, no passado, sido apoiante de um desses partidos, de imediato começou a receber telefonemas e mensagens ameaçadoras. A reação que esperava, aconteceu.

Os caça likes estão no terreno, nada pode ficar por varrer, na censura diária feita a mando do regime pelos imensos assessores que proliferam no mar das nomeações publicadas no jornal oficial.

Dia a dia ouvimos histórias destas, a pesquisa, o fotografar dos eventos políticos, a procura incessante pelos prevaricadores do sistema instalado, o que quer que seja, até um mero like. Rapidamente são chamados “à pedra”. A ameaça com o emprego, com o apoio, com a habitação, com a instituição, seja do próprio, do marido, da mulher, da mãe, do filho, da sogra ou até da amante, há sempre qualquer coisa para ameaçar. Nada escapa à malha apertada da censura tão típica de outros regimes, que ao menos não se afirmam como democráticos.

São décadas de práticas opressoras, do comprar através do emprego, do cargo, da nomeação. São décadas a controlar uma legião de seguidistas que, mesmo não se revendo nas políticas impostas por uma democracia musculada, são obrigados a aceitar e a se curvar perante os olhos penetrantes dos caça likes e dos seus mandantes.

Estes perseguidores, bajuladores, numa primeira fase, para conquistar o coração aos chefinhos, predispõem-se a entrar para o pelotão de recrutas caça likes, prontos a perseguir todos, sejam perfeitos desconhecidos, ou o colega da mesa ao lado, ou mesmo aquele amigo bastante próximo. O prémio, ao caçar um destes últimos, será maior ainda, podendo exibi-lo na sala da sua casa, uma oferenda ao melhor estilo de uma cabeça de veado colocada no topo de uma parede de um qualquer palácio de caça da realeza de olho azul. Passada a fase da recruta, chega o momento da criação do seu perfil falso, um “upgrade” na cadeia social do batalhão opressor. Aí, começam a manipular notícias, apuram a capacidade de mentir e, quando chegam ao ponto em que os próprios começam a acreditar nas produzidas mentiras, é finalizado o período de aceitação. Estão prontos para que o seu nome integre a tal lista das nomeações do jornal oficial.

Felizmente temos muitos dos perseguidos pelos caça likes, que se erguem e conseguem dizer basta! a um regime gasto, caduco e opressor. Apesar de um comando exercido com tal pressão que se torna natural, em que o reagir é estranho, há pessoas com a força para dizer basta!

Hoje, a Joana, apesar de perseguida, de saber que as probabilidades de progredir na carreira pública, que exerce, estão congeladas pelo menos até à queda do regime, caminha erguida, libertou-se do peso que carregava aos ombros, que a obrigava a abanar a cabeça sempre que lhe fosse pedido, a abanar a bandeira numa herdade poeirenta e decadente, sempre que tocasse a sineta.

Hoje a Joana é feliz, tem a consciência tranquila e percebeu que a dignidade vale muito mais do que o curvar de costas permanente. Libertou-se, ignora os caça likes, ri dos perfis falsos, age com naturalidade. Hoje, a Joana emite a sua opinião livremente, hoje a Joana é livre.

Que todas as Joanas se possam libertar!

Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência.