Estudei na melhor escola da Madeira

Eu fui estudante, desde o 7º ano até ao 12º ano, da Escola Secundária Francisco Franco, isto é, foi o local até hoje onde passei a maior parte da minha vida de estudante. Logo, os rankings das escolas deviam deixar-me feliz. É isso? Como é óbvio, não.

Estes rankings são demasiado redutores e, simplesmente, são uma estratégia de marketing e de venda do ensino particular aos pais que procuram o melhor para os seus filhos.

Eu quero, desejo e procuro que o mérito seja recompensado, que as desigualdades diminutas e, por sua vez, exista equidade no acesso aos graus de ensino mais elevado. Mas será isso que acontece?

A Madeira aparece com a melhor escola em 168º lugar, o que significa que existem 167 escolas à frente das escolas madeirenses. Mas será que os alunos madeirenses serão piores do que o resto do território português, em especial das 40 melhores escolas, que, inexoravelmente, tendo em conta estes rankings, são privadas.

No Ensino Superior Público, aí sim, existe uma maior democratização do ensino, apesar do mesmo ser pago, pois é aí onde o aluno pobre senta-se ao lado do aluno rico, ambos têm acesso às mesmas ferramentas, caso não tenham, mesmo que o rico tenha acesso a mais ferramentas e estas deem um ligeiro avanço, o pobre, que sempre se esforçou mais, não achará grande dificuldade em igualá-lo. Nas desigualdades não se pode só falar da classe social, falámos também das regiões, do interior para o litoral, do continente para as regiões ultraperiféricas, dos alunos deslocados, dos que tiveram a sorte de não se deslocarem, dos que tiveram de abandonar os estudos para trabalhar ou até conciliar. Somos um país tão pequeno, mas cheio de assimetrias. Somos um país onde um pobre tem tantas facilidades como um rico, em que, solidariamente, a classe média paga os subsídios dos pobres e os impostos que os muito ricos não pagam.

No ranking das escolas, seria importante saber a relação entre os resultados e os rendimentos das famílias dos alunos. Será que as escolas mais bem classificadas eram de classes baixas, médias ou altas? Quantos destes alunos já trabalhavam? Quantos destes alunos possuíam alguma deficiência? Quantas destas escolas tiveram professores o ano inteiro? Estas são algumas das questões que se pode fazer e a que o ranking, simplesmente, não responde. O ranking é, indiretamente, a promoção das escolas privadas. Será que os alunos que praticam desporto não deviam ser discriminados positivamente? Falo de casos que conheço, será que uma escola que tem alunos a sair às 18 ou às 19 horas e depois esses mesmos alunos vão praticar um qualquer desporto, chegam a casa às 22 horas estão em igualdade com os outros? Mas nunca se pensa no desporto como parte integrante do ensino, simplesmente como algo complementar. Só os atletas de alto rendimento possuem acessos e benefícios em relação aos outros. Nos anos dos Olímpicos, os portugueses ficam chateados, pois não aparece medalhas nos rankings, olha outro ranking e aí se demonstra que ninguém quis saber de colocar o desporto como integrante no ensino, não se deu as melhores condições aos atletas que um dia foram alunos.

Os pais mais desatentos vão nesta lengalenga de quem são os melhores do ranking, mas podemos comparar o incomparável?

As desigualdades no nosso país vão além das escolas, isto é, um país tão pequeno e em Lisboa que não decide uma regionalização para combater estas assimetrias nacionais. É Lisboa, que possui o PIB mais alto e o mais alto investimento privado, tem sedes das maiores empresas, que decide se deve ou não existir CINM, se deve ou não existir o Infarmed no Porto, que decide que os grandes eventos nacionais são lá e não noutro qualquer lugar do país. O resto do país é simplesmente para passear e ir visitar os familiares à aldeia. É este o país que temos, nem para estudar serve, pois Lisboa não dá condições! Enfim, rankings onde se insiste em comparar o incomparável.