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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

11/01/2026 03:30

Esta já passou. Ninguém se pisou. É esperar pela próxima. Que venha outra igual a esta e não pior, que já está bom.

Estas eram as conversas do antigamente, nas passadas da fonte, enquanto as mulheres enchiam os aguadores para fazerem o almoço e conversavam sobre coisas triviais, mas de grande valor para elas, como as flores, as limpezas, os cozinhados, os estudos dos filhos que andavam na cidade na Escola Industrial e Comercial do Funchal.

E agora, como vocês sabem, eu tenho dito que no Natal vamos todos uns atrás dos outros e fazemos como vemos fazer. Pois olha, eu também fui atrás de conversa e ofereci lembranças e também recebi presentes, fiz limpezas, enfeitei e recebi pessoas amigas. Tudo como em todas as casas, mais coisa menos coisa, para lembrar à Festa. Ora, eu ia lá ser diferente? Só me aconteceu uma coisa: não me deu tempo a dar “Pronto” nas portas para ficar cheirando à Festa e fiz esse trabalho num dia depois do Natal. Olha, já fica feito para a próxima...

Neste Natal, ouvi na televisão, uma entrevista do D. R. a uma senhora, na noite do Mercado que dizia que agora só há barracas para comer e para beber e que antigamente era melhor, pois também as havia para se poder comprar brinquedos para as crianças. Nisto, há um homem que se mete na conversa e diz que está tudo maravilhoso e a senhora, agora desencorajada, encolhe os ombros e diz que sim, que está tudo muito lindo e acaba assim a conversa... Eu também já ouvi que há tantas bebedeiras nessa noite no Mercado que é uma dor de alma. Eu cá não sei...

Sei que depois da Festa vêm os Reis. “Cantar os Reis”, segundo o professor G, agora virou espetáculo, o que descaracteriza a essência da tradição. Pois já se sabe que “Cantar os Reis” era ir de casa em casa, acordar quem já estava a dormir, durante a noite de 5 para 6 de janeiro, com instrumentos musicais, acordeões, bombos, rebecas de cana, pandeiros e pandeiretas, sininhos e rajões. Entrava aquele mar de gente pelos terreiros adentro, os cachorros começavam a uivar com medo, encolhiam o rabo e metiam-se dentro da casota. O dono, para não ficar mal, acendia a luz a petróleo ou, em algumas casas, a luz elétrica da mesinha de cabeceira; ia à janela e dizia por dentro dos tapa-sóis “Vocês que vão para o lado da cozinha que eu já vou abrir a porta a vocês. Não tenham medo do cachorro que ele não investe”. Uma das quadras cantadas que salta na minha memória era assim “Afastai as bancas/ Afastai as mesas/ Aqui vem 3 reis/ de canelas tesas”. Há também o resto de uma outra “... Não tem nada que me dê/ dê-me um copinho de vinho”. Quem não gostava nada disto era minha mãe. Ela valorizava muito os estudos das filhas e no outro dia, era dia de escola. Era preciso dormir bem para ter um bom desempenho escolar. Aquela gente àquela hora pela casa dentro não era conveniente. Mas enfim... para acompanhar o nosso vinho da parreira, lá minha mãe se prontificava a arranjar uma pontinha de bacalhau ou gaiado seco com alho, cebola, salsa, azeite e vinagre, e bocadinhos de pão para molhar no molho. Só ela sabia o quanto desejava que todos fossem logo embora pela porta fora. Só ela, não. Eles bem o suspeitavam. Prova disso foi um retrato tirado dentro da nossa cozinha, onde minha mãe aparece de má cara. Já se sabe que o retrato foi depois exibido na venda do senhor Roberto e arredores. Só não viu quem não quis. Quando chegou aos ouvidos de minha mãe, ela não negou, riu muito e defendeu-se: “Ah amigo, era por causa das pequenas que iam para a escola no outro dia.”

“Sim, sim, Sra. Gabriela, visto o caso, as pequenas foram as culpadas” – respondeu o do bombo com ironia.

Sílvia Mata escreve ao domingo, de 4 em 4 semanas.

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