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Artigo de Opinião

Psiquiatra

13/07/2022 08:00

Em grande parte das dimensões da vida estamos sós. Estamos sós quando nascemos, quando tomamos decisões, quando morremos. Estão por vezes muitas pessoas connosco, ou simplesmente as importantes, mas somos só nós os responsáveis pelas decisões da nossa vida, quer gostemos, quer não. Por vezes encostamo-nos nos outros para tomarmos decisões, ignorando a decisão que tomámos de serem os outros a decidir por nós. Decidimos, tanto a decidir, como a deixar que decidam por nós.

Na vida, nas decisões, mas sobretudo na diferença, estamos sozinhos. Quando tentamos decidir algo difícil, tentamos reunir-nos das pessoas que partilham a nossa opinião, para não estarmos sozinhos na decisão. Assim, afastamo-nos frequentemente das pessoas que têm opiniões contraditórias. Este é um mecanismo humano de sobrevivência social, mas que conduz a vários problemas, entre eles, o problema que as redes sociais amplificaram. O principal problema é a radicalização dos gostos e das opiniões. Estamos num mundo de interconectividade digital e florescem os movimentos extremistas. Que mundo é este que estamos cada vez mais próximos, mas as nossas ideias estão cada vez mais afastadas?

Os grupos formam-se em torno de comportamentos ou ideias. Apesar de habitualmente não termos consciência, cada grupo a que pertencemos tem uma crença. Se queremos fazer parte desse grupo, temos de aceitar a crença, ou o grupo afasta-nos. Ao aceitarmos a crença, afastamo-nos dos outros grupos e de nós próprios. Vemos assim exemplos de tantas pessoas que mudaram radicalmente de posição, de comportamento, de forma de ser, por terem-se associado a determinados grupos e organizações.

O que a tecnologia trouxe foi ampliar a dinâmica de grupo e assim, a polarização. A tecnologia não nos trouxe capacidade para pensar, para sermos melhores pessoas. Aproximou-nos, mas ao facilitar muito do processamento cognitivo, acabou por desligar-nos o pensamento crítico. Se estamos cada vez mais polarizados e desligados, estamos menos disponíveis para encontrar o outro a meio caminho.

Aqui chegamos ao ponto mais importante. Se estamos no nosso canto isolado, estamos desligados e evoluímos pouco. Mas se estamos demasiado ligados aos outros, estamos demasiado confortáveis com pessoas com as mesmas opiniões e também não evoluímos. Precisamos do equilíbrio da diferença entre ideias e convicções, entre sozinho e acompanhado. Precisamos da maleabilidade e flexibilidade cognitiva de ouvirmos e aceitar o que é diferente. Se não conhecermos e aceitarmos o que é diferente, como podemos ouvir o outro por aquilo que ele é e não pela nossa conceção prévia do que ele deve ser?

No esforço de querermos estar bem com os outros, submetemo-nos a comportamentos que nos fragilizam e aceitamos igualar a sua opinião. Os grupos com lideranças sem mudança estagnam e acabam por desvanecer e desaparecer. Se optamos por estar sozinhos, falta-nos o contacto humano para questionarmos as nossas ideias.

Na doença mental, a fragilidade de quem sofre é o seu maior calcanhar de Aquiles e uma das razões de ser tão difícil atingir a cura. É fundamental transformar os nossos comportamentos e pensamentos que nos fragilizam, que nos tornam menores do que somos. Libertar o peso do sofrimento, o peso de agradar ao grupo e descobrir a nossa identidade, sem nos isolarmos e sem nos submetermos à opinião alheia.

Viver na diferença e abraçar a diferença que existe em cada um de nós. Aceitarmos a nossa autoria no comando da nossa vida. Saber que somos todos animais humanos, com falhas, muitas, mas com desejo de transcender a essas falhas e florir o nosso potencial.

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