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Artigo de Opinião

Advogada

12/07/2023 08:00

Revejo-me, inteiramente, nas palavras de Sua Santidade e não consigo lobrigar como é possível continuar a pensar-se que a dignidade de uma pessoa está em "levar o pão para casa", ao invés de se alcançar que o que confere dignidade a uma pessoa é conceder-lhe "a capacidade de ganhar o pão".

Estamos numa Europa em que a queda do Governo neerlandês se deveu ao facto de não ter conseguido ver aprovada uma proposta do seu partido que previa um sistema de asilo que apenas autorizaria a entrar nos Países Baixos 200 refugiados de guerra por mês. E os filhos dos refugiados teriam de esperar dois anos para receberem autorização de entrada.

Aqui está, infelizmente, mais uma proposta que colocava a tónica no "levar pão para casa" e não na possibilidade daquele país, tal como os demais, atribuir a todas as pessoas a capacidade para ganhar o pão, conferindo-lhes, assim, dignidade.

Por que motivo continuamos a não querer colocarmo-nos no lugar do outro, sobretudo do "coxo", do "cego", do "moribundo", daquele que foge de um país em guerra, da criança que ficou destroçada por ver partir os seus pais, os seus avós e em que apenas lhe resta a nossa misericórdia, o nosso entendimento? O que fazemos? Ainda muito pouco!

É um exercício difícil de fazer, porquanto nos faz colocar o nosso coração no coração do outro e com isto sofremos. E nós não gostamos de sofrer!

Logo, ao estar "longe do coração e longe da vista", vão-se tomando decisões que colocam em causa a dignidade da pessoa que, apenas, pede que a "ensinem a pescar", que lhe permitam continuar a acreditar que é possível viver num mundo que tem fome e sede de Justiça e que com ela se alegra, chorando com a Injustiça.

No âmbito de um processo da jurisdição de família, em que sou mandatária de um dos progenitores, tive de me deslocar, por duas vezes, ao Continente para a respetiva diligência que, por duas vezes, não aconteceu, por virtude da greve dos senhores funcionários judiciais.

Assim, não foram realizadas as audições das crianças, que estavam previstas, nem reguladas as responsabilidades parentais, tudo continuando à deriva, não obstante o esforço dos mandatários para que os progenitores consigam encontrar um caminho.

Quando perguntei a uma das crianças, com 12 anos, por que motivo estava triste disse-me: "Dra. Paula parece que sou uma bola num jogo de ténis que nunca mais termina. Quando é que é a próxima data?"

Olhando para aquele menino, que apenas quer ser feliz e amar livremente os pais sem se sentir culpado por viver mais tempo com um do que com o outro, e que acredita que a senhora Juíza o vai escutar e encontrar com ele a solução para a sua família, tive tanta vontade de lhe dizer "querido, vamos conseguir"! Mas eis que perguntei à senhora funcionária judicial se teríamos em breve nova data e a mesma me responde: "senhora Dra., vamos continuar em greve e até durante o período das férias, o impacto tem se se fazer sentir"!

Será que o Governo da República não alcança que a teimosia não nos leva a lado nenhum, que um país, assim, não progride, antes finge que salta sem que chegue a lugar algum?

Todos temos fragilidades e todos temos responsabilidades e estas últimas exigem de todos nós atos de coragem que não conhecem interesses egoístas, mas, antes, uma tremenda capacidade de reconhecer os erros, de dialogar e de fazer pontes para que se possa alcançar o bem comum! Vou continuar a acreditar e a transmitir àquele menino que a Justiça é amiga e que caminhará, sempre, ao seu lado, com ele rindo e com ele chorando!"

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