As eleições presidenciais e os debates internos partidários são frequentemente tratados como planos distintos da vida política. Não o são. Ambos revelam, em momentos diferentes, a mesma patologia de fundo: a substituição da legitimidade histórica, institucional e material por retórica, moralismo e política sem fundamento.
No plano nacional, a eleição presidencial expõe um limite estrutural do regime. Um presidente, por definição, é sempre produto do seu tempo: das circunstâncias, das alianças, do cálculo e da carreira. Por mais elevada que seja a sua retórica, a sua legitimidade é contingente e temporária. Não nasce da continuidade histórica, mas da rotatividade. Não encarna a permanência; administra o instante. É por isso que, em momento algum, um presidente, ou qualquer político profissional, pode reclamar a mesma legitimidade de um chefe de Estado monárquico, cuja autoridade não resulta da competição, mas da duração, da sucessão e da memória longa de um povo.
A anulação do voto, neste contexto, não é apatia nem protesto infantil. É reconhecimento lúcido de um limite institucional: o de um sistema que confunde eleição com legitimidade e mandato com continuidade.
No plano regional, a crise assume forma diferente, mas origem semelhante. A moção de estratégia apresentada por Célia Pessegueiro nas internas revela não apenas um desacordo político, mas uma falha estrutural de compreensão do que é governar. O documento multiplica compromissos, alarga o perímetro do Estado regional e promete expansão de políticas públicas sem enfrentar a questão central: de onde vem a receita que as sustenta.
A omissão não é técnica, é propositada. Qualquer política com impacto orçamental exige base económica real, receita permanente e crescimento sustentado. Numa região ultraperiférica, demograficamente frágil e com base fiscal limitada, isso só é possível através da diversificação e internacionalização do tecido económico. Ignorar estes pressupostos, é ignorar deliberadamente instrumentos fiscais como o Centro Internacional de Negócios da Madeira, não é opção ideológica respeitável, é irresponsabilidade de quem se propõe a governar.
As consequências são conhecidas. Sem economia diversificada, e internacionalizada por via da competitividade fiscal internacional, não há emprego qualificado (e salários mais elevados). Sem emprego qualificado não há fixação de jovens. Sem jovens não há sustentabilidade demográfica. E sem esta, o próprio Estado social que se proclama defender torna-se inviável.
Presidenciais e internas convergem, assim, num mesmo diagnóstico: um regime que substituiu legitimidade por procedimento e economia por proclamação. Nem a chefia do Estado se resolve com marketing político, nem a Autonomia regional se constrói com manifestos morais desligados da realidade material. Instituições vivem de continuidade, e políticas vivem de meios. Quando ambas são esquecidas, o resultado não é progresso, é erosão.
“Se algum dia mandarem embora os reis vão ter de voltar a chamá-los.” -
Alexandre Herculano