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Artigo de Opinião

14/10/2023 08:00

As televisões brindam-nos com as imagens de destruição como se se tratasse de um jogo virtual que não nos toca na pele, e despontam os opinadores e especialistas em estratégia militar e geopolítica, empolgados com um intrincado e distante jogo de xadrez. Não tarda, as redes sociais encher-se-ão de peritos populares, alguns tomando parte por um dos lados, envergando as suas bandeirinhas, tal como se revelaram catedráticos no conflito da Ucrânia, técnicos abalizados na luta contra a Covid 19 e penalistas insignes no processo de Sócrates ou de Salgado. Não será por falta de mão de obra especializada que Portugal não é um país de vanguarda.

A minha ignorância sobre o que está verdadeiramente em causa, não me permite arriscar qualquer opinião e discernir quem é afinal o terrorista. O que me traz aqui é que perante a calamidade, a guerra, a morte, tudo se torna diminuto num repente. O que me pudesse incitar a escrever, as tramas de uma actualidade liliputiana, os egos inflamados por minudências, a posse deste ou a destituição daquele, o contorcionismo ideológico daqueloutro ou o deslumbramento mesquinho por uma cadeira sem valor na História, reveste um pendor tão insignificante perante a tragédia que constitui a guerra. Após séculos e tantas guerras inúteis, ninguém aprendeu nada e o mundo continua a dirimir conflitos pela insanidade do poder das armas. Afora um fanatismo doentio cedo se deve concluir que em qualquer contenda a razão nunca está completamente em um dos lados, mesmo que seja o nosso ou aquele que a propaganda e a estratégia dos blocos beligerantes nos pretendem inculcar. Sendo assim, não será possível dialogar, conceder, chegar a um acordo pacífico? A quem não interessa afinal a paz? Na raiz de tudo isto está a pulsão predatória e egoísta do Homem pelo poder, económico, político, religioso ou qualquer outro. As guerras entre povos não são mais do que um espelho maior do egocentrismo violento nos conflitos do pequeno quotidiano, da rixa no trânsito, da violência doméstica, que devem ser resolvidos pacificamente.

As pulsões de domínio pela força das armas conduziram à criação de arsenais bélicos nucleares, cuja pujança, ainda que supostamente dissuasora, traduz tão só uma ignominiosa e suicidária visão da humanidade. A que e a quem se destina afinal aquele potencial de extermínio? Não somos todos membros da raça humana, com direito a viver condignamente e em paz, resolvendo os conflitos pelo diálogo, pela persuasão conciliadora? O que mais me choca é graduar o valor da vida humana consoante o lado da barreira, compadecido se for o nosso, contabilizado fria e indiferentemente como uma mera baixa, se for do outro, como se cada vida não fosse em si um valor absoluto e insubstituível. Como escreveu John Donne: "A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti ". Dir-me-ão que isto é um arrazoado pueril, mas continuo a acreditar na redenção humana. Nada mudará, porém, no cínico e apodrecido cenário mundial e ganhará a razão da força, até que um dia algum louco decida carregar no tal botão e se vá procurar uma arca de Noé que não existe. Se não nos é possível conter a fúria de poder das nações que instiga à violência, façamos ao menos o esforço para a mitigar nos nossos quintais. Educando a célula mais restrita talvez se chegue à partilha e à cooperação global, em detrimento de uma aloucada predação.

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