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Artigo de Opinião

11/11/2023 08:00

O vulto, de sua graça Aníbal, é um cidadão com nome completo no registo civil e por lá diz que acabou de fazer cinquenta anos. Noutra vida foi um exímio fiel de armazém. Teve mulher e filhos. Mas a mulher queria mais. Mais dinheiro, mais coisas, mais sexo, como tinha a vizinha. Aníbal não era ambicioso ou combativo, bastava-lhe o amor sem condição que nutria por eles e em tudo o mais que não o chateassem. O patrão mandou-o embora invocando uma qualquer dificuldade financeira e de reestruturação do negócio. Procurou de novo, mas já era velho para o mercado. E a mulher queria mais e a vida e as dívidas pediam-lhe mais à coragem que não tinha. Aníbal tolhia-se na acção, num desencanto humilhado, confiando que o seu bom Deus havia de lhe indicar, no merecimento do seu carácter e são coração, um caminho que não veio. Toda a gente o incitava a persistir, no voluntarismo esforçado com que se vai travestindo a indiferença pelos males alheios, mas na fraqueza contra todas as adversidades, acabou por desistir, desistir de tudo, da vida, dos seus, de si. Chamaram-lhe louco, vadio, tonto, zaralho. Quanto mais o impeliam mais ele desistia. Viu-se na rua e pela primeira vez sentiu-se livre, empoderado pela liberdade de tudo ou nada fazer quando já não há nada a perder, a liberdade de não ser ninguém. Enquanto ajeita o papelão sob o cobertor surrado, vai mirando atentamente os passantes. No pensamento aturdido pelo vinho rasca, milhentas reflexões se lhe deparam, mas já nada espera e isso só o faz reter uma confortável indiferença. Ei-los cheios de si, confiantes, soberbos, convictos de que vivem.

Na verdade, o que vivem, que sentido tem a vida, viver como todos vivem? Será nascer, crescer, descobrir o prazer, lutar endoidecido por um qualquer naco de poder ou a sua ilusão e morrer? Autómatos que alguém manuseia e que se desunham incessantemente para pagar uma renda, uma hipoteca, um empréstimo para um carro, sobrando o gozo de um franguinho assado na serra no fim de semana, a cavalgada apressada e rotineira sobre a mulher e a desdita do enfarte na merecida reforma? Ou esses que julgam que estão acima e nada lhes toca que vivem eles?

Aprisionados numa luta egoísta e insana por mais e mais poder, que se engalanam com artefactos e imagens como se isso os distinguisse ou lhes criasse um valor de viver diverso dos demais? Que escondem debaixo de pretensos estatutos mãos cheias de vilanias e falsidades a que chamam vida? Ou os que para segurar sinecuras prostituem convicções, a cruz de Cristo e até vendem a alma, numa desfaçatez que faz corar de vergonha alheia? Quanto dariam alguns pela minha tresloucada liberdade que lhes ressuscitasse a autenticidade que perderam? Aníbal escorregou e bateu com a cabeça num lancil do passeio. Morreu no hospital dois dias depois. Só o cão o chorou.

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