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Artigo de Opinião

7/01/2023 08:00

O mais fulgurante é aquele que se convencionou ser o fim de um ano e o início de outro. E esta parcela artificial do tempo, como disse o poeta: "Ficção de que começa alguma coisa! Nada começa, tudo continua (…) começar só começa em pensamento", vem carregada de um ânimo voluntariosamente benevolente, de esperança e milhentos desejos de felicidade. Estamos em 2023 e como se vê nada mudou, nem o mundo acabou como se parecia entrever apressada e alucinadamente em Dezembro, num traço filosófico que se cola nos descamisados, de uma certa pequena burguesia de horizonte vazio, que não questiona, não incomoda, confortavelmente amolecida nos prazeres e na segurança das coisas materiais e que, orgulhosa dos seus predicados, carece de os ostentar nos brilhos da época. Apesar dos desejos inflamados e das coisas maravilhosas que se disse no espaço cénico das redes sociais, como mero aconchego do ego, tudo voltou à normalidade e a normalidade é feita de indiferença, de egoísmo, de iniquidade. A insensibilidade e a vileza da natureza humana mascaradas por detrás de smokings e lantejoulas efusivas de ocasião. Apesar dos abraços que aqueles que o odeiam ou invejam tiveram o cuidado de lhe enviar especialmente, logo vai sentir o calafrio da faca nas costas. Apesar das fotos esplendorosas em que estava feio e gordo como é todo o ano e as amigas lhe disseram que estava lindo, vai continuar feio e gordo. Apesar das tréguas envoltas em fogo de artifício, os filhos da mãe ensaiam já a próxima trapaça e os politiqueiros vão estar a borrifar-se para si afora o que vale como voto. E provavelmente a maioria dos seus desejos para 2023 não se vai concretizar como não se realizou em 2022. A vida é crua e injusta e vai continuar a ser. Pode ser feita de esperança e ilusão, mas também de lucidez, de resignação, de desistência. Em lugar de partilha e cooperação, a vida rege-se pela absurdez do egoísmo, pela competição feroz, pela ânsia desvairada pela posse, pelo poder, por um qualquer poder, à medida dos anseios e possibilidades de cada um. E só essa faceta iníqua e predatória da natureza humana explica as aberrações do mundo. Como se explicam os milhares de milhões canalizados para uma guerra, cuja finalidade só os poderosos do planeta verdadeiramente conhecem e em que morrem jovens em ambos os lados das trincheiras que podiam ser os nossos filhos, quando há 800 milhões de pessoas que passam fome? Como se explica que ultrapassada a ignomínia social do sec. XIX, a humanidade continue a conviver com a escravatura laboral e o aviltante trabalho infantil? Como se explicam os acrescidos milhões de lucros empresariais, num país cuja bitola remuneratória do trabalho de jovens qualificados é o ordenado mínimo? Que ordenados pagariam os inefáveis empresários se não houvesse patamares mínimos exigidos por lei? Como se explica que alguém se aproveite da fragilidade de imigrantes, em busca de melhor vida como o fizeram os nossos emigrantes, para os explorar vergonhosamente? Como se explica que em países de uma União Europeia rica, solidária e democrática, incluindo o nosso, haja orgulhosamente bancos alimentares contra a fome, em lugar de patamares dignos de vida para todos? Enquanto não mudarem os paradigmas e a inanidade dos desejos para os anos vindouros, o egoísmo continuará a despojar a vida em comum da sua verdadeira dimensão humana.

OPINIÃO EM DESTAQUE
Coordenadora do Centro de Estudos de Bioética – Pólo Madeira
11/04/2024 08:00

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