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Artigo de Opinião

1/04/2023 08:00

Tudo tem o seu contexto histórico-temporal. Não se pode compreender e julgar algo correctamente se não se lhe apreender o estádio civilizacional e as suas circunstâncias. O passado e a História hão-de ser julgados à luz dos conhecimentos actuais, mas compreendidos de acordo com as suas vicissitudes próprias e o universo em que ocorreram. E isto vale para tudo. A postura irreflectida com o passado, tem ditado, após Abril, uma inconsequente e inacabada reforma do Estado, através de uma insana diarreia legislativa, onde quem chega destrói cerce o que havia sido adquirido. Afirmam-se vontades conjunturais e politicamente mesquinhas, sem se lograr um quadro reformista estável e duradouro. Essa mesma atitude social propende, num fervor rancoroso, a apagar os traços do passado recente e os seus artefactos, como o pressuroso derrube das estátuas e bustos de ditadores. Na miséria generalizada Salazar foi nefasto. Mas não é escamoteando a sua existência ou derrubando estátuas que se apaga o seu traço maléfico. A preservação da sua memória deve servir, não para perpetuar qualquer apologia, mas para manter presente o que não deve ser repetido de um certo contexto. Hoje, a sociedade parece querer viver na obliteração de qualquer memória que a incomode e escudar-se num limbo cor-de-rosa e asséptico. Mais do que uma reacção psicológica singular, de meter a cabeça na areia, parece haver uma síndrome colectiva que pretende escamotear a crueza da realidade e a incorrigibilidade do passado. Actualizar livros, supostamente para proteger sensibilidades, é não só uma violência sobre a liberdade criativa, como é deturpar o passado e apagar o rasto daquilo que deve ficar sempre na memória. Constitui uma forma de branqueamento e esquecimento do que deve ser inesquecível. O combate à exclusão, à segregação racial, ao ódio pela diversidade, não se opera pela sua expurgação dos livros ou alterando-lhes o contexto. É mantendo viva a memória crua dos seus factos que se pode perpetuar a sua condenação. A prosseguir nesta saga desfasada dos contextos, seria necessário varrer da História toda a barbárie e aquilo que hoje seriam manifestas injustiças ou crimes hediondos, como as atrocidades cometidas pela Santa Inquisição. Contextualizando, aquilo que é actualmente uma manifestação do direito à liberdade do uso do corpo e da imagem, como uma simples tatuagem, era visto no Séc. XIX, por Lombroso da Escola Positiva, como um indício da selvajaria do criminoso nato. Ele acreditava que havia pessoas com traços anatómicos que as faziam predispor para o crime. O desenho e o número de tatuagens presente podiam, segundo ele, revelar muito da sua vida e traçar o seu potencial delitivo.

A humanidade tem feito um caminho evolutivo e não é anulando ou actualizando os seus contextos particulares que se persegue o progresso. É o seu estudo e análise crítica que permitem ver a uma outra luz. E nesse caminho tem sido determinante o fulgor civilizacional que a Europa tem derramado sobre o mundo e cujo acervo é fundamental preservar. Veja-se a inenarrável ignorância e puritanismo da América profunda que permite considerar o nu da arte renascentista como algo pornográfico. O passado e o presente são dimensões da vida colectiva que não podem ser esquecidas. O apagamento da memória colectiva, como o fenómeno da desideologização, tem por detrás, muitas vezes, perigosas intenções ideológicas e de ressurgimento dos fenómenos a apagar.

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