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Artigo de Opinião

30/04/2022 08:00

Curiosamente tem vindo a ser introduzido no léxico das relações laborais a designação de colaborador, ofuscando intencionalmente a qualidade de quem não manda. E como se a posição laboral do trabalhador fosse algo menos edificante quando o que está em causa é a troca de um salário por uma voluntária e honrosa disponibilidade de mão-de-obra. Quem nunca ouviu nos hipermercados uma voz estridente em altifalante ruidoso a solicitar a presença da colaboradora da limpeza na secção dos lacticínios ou na caixa 3? E não se trata de uma sugestão que a colaboradora tenha a liberdade de melhor interpretar na sua posição colaborativa, mas de uma verdadeira ordem a cumprir. É óbvio que do ponto de vista legal tudo isto é irrelevante. Uma das partes é a entidade patronal, a que dá as ordens e a outra o trabalhador, que as acata, e a lei e o contrato definem claramente os direitos e deveres de cada um. Trata-se de um artifício de linguagem, um eufemismo entre muitos em que o país é pródigo, engendrado com um propósito não inocente. O mesmo se passa com os nomes dados a algumas profissões que eufemisticamente procuram adoçar as agruras e a crueza do tipo de mão-de-obra, como se qualquer trabalho não dignificasse o Homem.

Quando se fala de colaboração pressupõe-se que na relação haja uma qualquer comunhão de desígnio e que ambas as partes tenham um idêntico grau de autonomia de participação e iniciativa. Ora quem conhece o mercado de trabalho sabe que isto é ficção.

Do que se trata é de insuflar o ego do trabalhador e de lhe fazer crer que tem uma importância que não tem, procurando obnubilar os seus reais interesses e direitos. É o patrão a fazer-lhe crer que estão em pé de igualdade a lutar por um objectivo comum, o que é falacioso, porque neste jogo laboral há de um lado a parte de leão e do outro aquela que é tida sempre como coisa descartável que fica com uma migalha, às vezes deitada de má vontade nos mínimos da lei.

A fantasia de colaborador serve os intuitos dos espertalhaços do mundo empresarial de sucesso rápido, aqueles cujo único factor de produção que sabem dominar e endrominar é a mão-de-obra e que hoje sorvem fundos comunitários e amanhã declaram falência para voltar a abrir algures. Os que usam e abusam do recibo verde, do contrato a termo manhoso, do incumprimento à segurança social e outras aleivosias. Tudo a bem do desenvolvimento e do crescimento da economia, como se no desenvolvimento humano não fosse fundamental a felicidade de quem trabalha por conta de outrem e não tivéssemos todos o mesmo direito a uma existência digna e segura.

Caricato mesmo é ver adoptar o conceito de colaborador na administração pública, onde o vínculo de subordinação hierárquica é e sempre foi mais formal e rígido. O ardil é o mesmo, com a diferença de que o patrão privado não vai a sufrágio. O colaborador que se atreva a não cumprir uma ordem a pretexto de que no seu conceito do trabalho comum e colaborativo aquilo não faz qualquer sentido e logo perceberá como acaba essa qualidade fantasiosa.

Mais do que uma ocasião de borga, era importante reflectir amanhã sobre a importância dos acontecimentos em Chicago em 1 de Maio de 1886 e a justa reivindicação da redução da jornada de trabalho diário que chegava a ultrapassar as 14 horas. Coisas dos tempos que os arautos da progressiva desregulação laboral parecem esquecer.

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