Em 1961, Hanna Arendt foi a Jerusalém para assistir ao julgamento de Eichmann.
Eichmann era um militar de média patente que, diligentemente, foi um dos organizadores do desenho daquilo que eufemisticamente se chamou a “solução final” para o problema dos Judeus na Alemanha nazi. Dos transportes ao assassínio em massa, planeou meticulosamente toda uma operação cujos resultados não devemos esquecer nem deixar repetir.
Foi apanhado na América do Sul, mais de uma década depois do fim da II Guerra Mundial, foi levado para Israel onde, na primavera de 1961 começou a ser julgado, tendo acabado por ser condenado à morte pela sua participação no Holocausto.
Dessa experiência resultou um dos livros mais conhecidos de Arendt, “Eichmann em Jerusalém”, no qual defende a ideia de que o Mal não requer genialidade, mas há uma banalidade do Mal que o põe ao alcance de praticamente toda a gente.
Três meses depois do início do julgamento, em agosto do mesmo ano, Stanley Milgram levou a cabo uma experiência sociológica sobre a capacidade humana de fazer mal a outrem por ordem de alguém a quem reconhecem autoridade.
A experiência consistia numa espécie de método acelerado de ensino em que teriam de aplicar choques elétricos a uma pessoa (que não viam, mas ouviam) cada vez que falhassem uma resposta. A intensidade dos choques era aumentada pelo operador, o sujeito da experiência, por indicação do falso assistente. A maior parte das pessoas estava disposta a aplicar choques superiores a 300 ou 400 Volts, limites que lhes tinham comunicado antes serem perigosos ou mesmo mortais.
A conclusão da experiência (repetida outras vezes desde então, com resultados semelhantes) é que é mais fácil ultrapassar limites de consciência que normalmente fariam quando a responsabilidade é atribuível a alguém a quem reconhecem autoridade.
Recentemente, Ben Palmer, um comediante de Nashville, levou a cabo uma experiência nos Estados Unidos que me lembrou estes dois episódios:
Na sequência da criação pelo ICE de uma linha de denúncia de possíveis imigrantes ilegais, este comediante criou uma linha falsa com o objetivo de conduzir uma experiência sociológica que lhe permitisse encontrar algum tipo de material para os seus vídeos e espetáculos. Apesar de referir expressamente nos termos e condições que o propósito era satírico e sociológico, e apesar de em nenhum lado dizer que é do ICE, a verdade é que mais de cem pessoas ligaram para esta linha pensando estar a falar com uma linha oficial.
As denúncias são, na maioria dos casos, por motivos algo mesquinhos: Denúncias de vizinhos, de colegas de trabalho, da ex-mulher e afins. Nesses telefonemas, o comediante não toma partido, mas repete em tom sério o que vai ouvindo, sublinhando algumas incongruências e criando algum desconforto do outro lado quando as pessoas se vêm confrontadas com as suas próprias palavras.
Um dos casos que fez mais sucesso, com mais de 20 milhões de visualizações, uma mulher, educadora num jardim-escola, ligou para denunciar os pais de uma criança de 5 ou 6 anos. Apesar de a criança ter nascido em Nova Iorque, e por isso, cidadã americana, e de os pais da criança irem todos os dias levar e buscar a criança às horas certas, a educadora ficou desconfiada do tom de pele e do sotaque e “descobriu que o pai é das Honduras e a mãe de El Salvador (ou vice-versa).
Quando lhe perguntam se o seu objetivo é deportar os pais da criança, deixando-a só no país, ou deportar a criança também em conjunto com os pais, confirma, mas fica desconfortável. Quando o suposto entrevistador a informa de que residem legalmente nos EUA e que pode descansar, pois a criança de 6 anos não constitui uma “ameaça nacional”, fica indignada.
Quando ouve as suas palavras repetidas pelo seu interlocutor como se estivesse a apontá-las, não gosta muito. Sente-se quase acossada e reage mal.
Vale a pena ouvir.
E depois vale a pena refletir sobre se não estaremos, como há oito décadas, num tempo em que o Mal ainda é banal.