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Artigo de Opinião

5/03/2026 08:00

A frase já a conhecemos: “metade do mundo são mulheres. A outra metade, os filhos delas”. Mas há dias em que isso parece valer pouco.

Chegámos a março e, daqui por uns dias, ao dia da mulher. Não obstante as conquistas já alcançadas - mais do que justas, é hora de voltarmos a falar de alguns números.

Em 2025, no nosso país, morreram 25 pessoas e registaram-se 29 778 ocorrências em contextos de violência doméstica. A maioria, com mulheres vítimas.

Foram acolhidas quase 1350 pessoas na Rede Nacional de Apoio à Vítima. A maioria, mulheres e crianças.

Os botões de pânico triplicaram em 7 anos.

Mas, também em 2025, 7889 pedidos foram feitos para travar processos de violência doméstica. Mais 500 do que em 2024.

O número de reclusos condenados por violência doméstica – em prisão preventiva ou efetiva - está a aumentar desde 2018, representando, já, 12% da população prisional de todo o país.

Bastaria um.

Em fevereiro, por ocasião do dia dos namorados e através de um recente Estudo Nacional sobre Violência no Namoro da responsabilidade do Art’Themis+, soubemos que muitos dos nossos jovens continuam a construir relações afetivas baseadas em comportamentos abusivos.

Bastaria um.

Nestes dias, em que enfeitaremos a realidade para festejarmos esse facto maior que é ser mulher, é bom que nos lembremos que, mesmo passados mais de 50 anos do 25 de Abril e volvidas cinco décadas de Autonomia, afinal falta tanto.

Falhámos esse princípio basilar que é respeitar o ser humano nas suas condições mais básicas.

Sentimo-nos incomodados com os números, temos pena, mas agimos pouco enquanto cidadãos. Relegamos o problema para alguém – o outro, a polícia, o governo, a segurança social, a saúde. E nós?

Se “metade do mundo são mulheres. A outra metade, os filhos delas”, enquadramo-nos numa qualquer parte desta equação e deveríamos agir em conformidade com essa premissa.

Continuamos a falhar. E falhamos, enquanto sociedade, por achar que a violência no namoro e doméstica só se combate nos consultórios de psicologia, na polícia, nos tribunais e nas casas abrigo.

Falhámos e falhamos diariamente quando não entendemos que este trabalho pode e deve começar em casa.

Se ensinarmos os nossos filhos e filhas a não aceitar o abuso, a opressão, o controlo com uma espécie de amor e se lhes deixarmos claro que o contexto de relação – seja ela de que índole for – deve ser espaço de respeito, descoberta, cumplicidade e partilha, construiremos um horizonte um tanto ou quanto diferente.

Festejar essa metade do mundo só vale a pena se, nas nossas ações diárias, não continuarmos a ignorar o que esse mesmo mundo nos diz: que falta a outra metade não ter medo.

Se continuamos a compactuar com partidos que querem as mulheres de bem em casa ou que gozam com a orientação sexual dos nossos jovens, se ainda dependemos de quotas para estar em alguns lugares, se temos de trabalhar o dobro para alcançar determinados patamares, se somos gozadas pela nossa vulnerabilidade, se arranjamos desculpas para os abusos perpetrados contra mulheres, se fechamos os olhos à violência nas redes sociais, se somos audazes na crítica à roupa ou à cor do cabelo, então – convenhamos – falta fazer muito.

Feliz dia, metade do mundo. Ainda temos tanto para fazer.

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