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Artigo de Opinião

Presidente da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

14/09/2023 08:00

Por apelarem à autoridade, à tradição, ao natural ou à experiência pessoal de outrem, bem como pelo facto de as pessoas poderem já apresentar determinadas crenças ou sugestionabilidade, muitas "terapias" apresentam-se como solução próxima e normalmente simples para questões complexas e densas. Para que possamos pensar sobre estas "intervenções" e tomar decisões, podemos colocar três questões-chave.

Em primeiro lugar, em que consiste a intervenção? Mais do que designações pomposas, atrativas, difíceis de decifrar ou estrangeirismos, é essencial sabermos em que consiste especificamente uma determinada terapia. Em muitos casos, verificamos que as designações são apenas novas roupagens e até mesmo derivações mais ou menos esotéricas de outras coisas que já existem. Noutros casos, há uma apropriação abusiva de termos, como é o caso do coaching. Certamente que muita gente ficaria surpreendida se soubesse o que significa ou especificamente o que se faz (ou não se faz) em certas "terapias".

Em segundo lugar, o que se sabe sobre a sua eficácia? Existem dados robustos que permitam recomendar o seu uso ou estamos apenas a falar de experiências e suposições? Ou os dados ainda são precoces para uma generalização do seu uso? Ou, ainda pior, são ignorados dados sobre a ineficácia ou até os riscos dessas propostas? E, neste teste, não podemos ignorar o efeito placebo - muitas vezes, certos resultados existem, não porque a intervenção tenha sido eficaz por si, mas porque as pessoas acreditam muito nela. Em suma, precisamos de garantias, obtidas através do método científico.

Por fim, quem é que leva a cabo essa intervenção? É um profissional que tem a formação adequada e está vinculado a um código deontológico, no âmbito de uma atividade com regras e enquadramento? E onde é que foram obtidas as "qualificações"? Não esqueçamos que certas certificações correspondem a cursos breves, formações circunscritas, com certificados passados simplesmente por quem as dinamizou. Ou que, por exemplo, gostar ou de falar com pessoas não qualifica ninguém para ser coach.

É muito positivo que tenhamos a liberdade para escolher as intervenções que quisermos e que consideramos que poderão promover o nosso bem-estar. E também é certo que não se pode regular e monitorizar tudo. Mas pensando num equilíbrio entre benefícios e riscos, para o indivíduo e para a saúde pública, é igualmente importante que haja a literacia em saúde psicológica, para que cada pessoa seja capaz de identificar a natureza da situação pela qual está a passar - lembremo-nos, por exemplo, que uma grande percentagem de pessoas nem tem consciência de que tem um problema de saúde psicológica - e sobretudo selecionar os cuidados de saúde psicológica de que está realmente a precisar.

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