Na semana passada, a democracia lusa presenciou um pequeno estremecimento no parlamento aquando do elo(quente) discurso de Hugo Soares. E que discurso, se assim se pode considerar. No tom, na forma e no conteúdo, ultrapassou tudo o que a decência aconselharia a moderar, ou mesmo a exterminar. O homem apareceu formoso e seguro, inchado e bem achado no seu patriótico paternalismo, vomitando lições de moral fiscal a tudo o que mexe para lá da ponta de Sagres. Uma enorme vergonha alheia, sim porque a vergonha era dos outros, pois o palestrante, uma coisa que não teve, foi vergonha.
O cavalheiro em questão até parecia que estava afrontado com tamanha eloquência e jactância, talvez acometido com suores frios, que não são mais do que episódios repentinos de transpiração política aguda que não estão relacionados com o calor, mas com uma acintosa falta de respeito pelos portugueses das ilhas, que já foram adjacentes (pois estavam mais para o lado). Confirmei na internet, estes tristes episódios podem ocorrer em situações de hipoconfiança, hipolata, ansiedade colonial, centralismo nervoso, infecção generalizada no cérebro e convulsões insulares, um caldo de sintomas muito comuns em líderes parlamentares um pouco provincianos. Os suores frios fazem com que a pessoa se sinta fria e podem ser acompanhados de palmas das mãos húmidas e pegajosas, muitas palmas, sobretudo se o grupo parlamentar do PSD tiver sido substituído por símios amestrados e muito barulhentos. Embora não sejam um problema médico em si (isso ainda estamos para ver), podem indicar sintomas graves, como ataque acéfalo ou choque analfabético.
Como se a novela já não fosse mexicana o suficiente, este brioso líder, ainda impediu os deputados sociais-democratas da Madeira de usarem da palavra durante o debate. A soberba demonstrada é um péssimo sinal para a democracia, mas se acompanhada de cobardia, então estamos mesmo no meio da porcaria, da imundice. A estes três deputados que nos representam no hemiciclo, Pedro Coelho, Vânia Jesus e Paulo Neves, o meu sincero agradecimento e enorme respeito. Não só pela forma abnegada como se mantiveram durante o triste episódio do homem do palanque, como também na resistência hercúlea ao transe colectivo de aplausos e urros da restante bancada, visivelmente contagiada por um qualquer estranho vírus. Porventura muito semelhante ao que habitualmente assola a bancada do Chega quando os seus machos alfa usam da palavra.
Tanto os Madeirenses como os Açoreanos sentiram-se acossados, envergonhados, menores, quais indigentes de mão estendida, em bom madeirense, alcançados. Não se trata de um subsídio, muito menos social. Também não é um auxílio, ninguém nos está a deitar a mão, é um direito que nos assiste e que alguém o está a entortar pela via fiscal. O povo ilhéu tem muita fibra, o oceano não nos vergou durante seis séculos, não nos venham agora atazanar. Sabemos que a TAP está a encher o bandulho à custa das nossas ilhas, pois este sistema não é mais do que um auxílio de estado encapotado, só faltava agora, um qualquer bisbórrias a dar batenças à gente. Não é qualquer dormente a falar grosso e a embardar com regras estúpidas que nos vai deixar emogados. Parece que a plataforma é uma autêntica boseira informática, mesmo para o povo estuporar e ter um fornicoque. Homessa, Sr. Hugo e Sr. Luis, não somos nenhuns trabuzanas e muito menos trafulhas, parem por favor com essas patachadas e de resondar o povo das ilhas, ou vamos ter baia da grossa, com muitos bananos e foiçadas nas queixadas, estou avisando... vaitarreque.