Esta é a saudação do momento, reflexo do desejo comum de que o ano seja auspicioso, não só para a vida privada de cada um, como também para todos, como sociedade.
Nas quadras festivas, colorimos a cordialidade habitual com votos alusivos a cada uma delas: feliz Natal, Páscoa ou o já referido Ano Novo. E fora destas épocas, de que forma nos saudamos?
Analisando um pouco, deduz-se que a maneira de nos cumprimentarmos difere com a idade e a relação social dos intervenientes. A mais global será a associada à hora em que nos encontramos: “bom dia, boa tarde ou boa noite”. Em tempos de religiosidade mais intensa, vinha esta fórmula composta com a referência divina: “Nosso Senhor (nos/vos/lhe) dê os bons dias”. Ao recordar, somos transportados a um ambiente de tempo lento, de espera entre o semear e colher; o percorrer a vereda com a foice e a saca de serapilheira no ombro até à levada por onde corria a água de rega. Mas leva-nos também à visão da pobreza e da subserviência. O bom dia, Sr. Doutor, ou outro título. E para as mulheres: “Senhora Dona” a anteceder o nome, ou “Bom dia, minha senhora”, ou o “Bom dia madame”, para as de estatuto social mais elevado.
Hoje, a saudação “bom dia/tarde/noite” chega-nos despida de envolvimento formal. Até na escrita, tornou-se comum como substituto de “Excelentíssimo(a) senhor/senhora.”
Temos também o motivacional: “Bom dia alegria!”, sempre acompanhado de enérgica boa disposição. Igualmente espelho de energia é o “Viva!”, sendo que os seus antepassados “Salve!” e “Avé!” se restringem hoje, quase em exclusivo, à liturgia ou ao cancioneiro religioso.
O despreocupado “olá” — ou a variante “Oi!”, importada do Brasil — é das formas mais recorrentes de cumprimentarmos alguém. É simples, direta e descomprometida. Podemos acrescer-lhe uma pitada de formalidade e cortesia com um: “olá, como está?”, que não implica que nos detenhamos para responder ou ouvir a resposta. Se resposta houver, fica-se frequentemente por um “bem, obrigado/a”, ou pelo tão estimado “vamos indo” ou “vamos andando”. Podendo-se a qualquer das expressões acoplar a intervenção divina: “Vamos andando, à conta de Deus”, ou “vamos indo, como Deus quer”. A cair no esquecimento perece estar a palavra “somenos” — “tenho andado somenos”.
“Está boa/bom?” vem sendo preterido em favor de: “tudo bem consigo/contigo?” Contudo, mantem-se: “está boazinha/bonzinho?”, endereçado aos mais velhos.
Para amigos, reservamos fórmulas especiais. Por exemplo, quando passamos longo tempo sem ver um deles, reclamamos da ausência prolongada com: “Há quanto tempo!”, “Sejas bem aparecido!”, “Por onde tens andado, que ninguém te põe a vista em cima?”, ou ainda: “Bons olhos te vejam!”, ao que o outro poderá retorquir: “e os maus curados sejam!”.
Para despedida: “até à próxima”, “até breve”, “até um dia destes”, “até um dia” ou “até sempre”, sendo que, nestes dois últimos casos, subentende-se que as perspetivas de reencontro são remotas ou, quiçá, indesejáveis.
Muito da nossa simpatia são o “tchau”, adaptado do “ciao” italiano, e, claro, o luso “adeus”— o que sobrou da antiga fórmula “comendo-vos/ encomendo-vos a Deus”. O carinhoso “Adeusinho, até calhar”. Há anos que não oiço. Será que ainda se usa?
Ora então, porque santo Amaro vem longe e a Festa prossegue: “continuações!”.
E com esta expressão tão rica de eloquência popular, termino a primeira crónica do ano que se desnovelou apenas porque vos queria, e quero, desejar um feliz 2026.
Carmo Marques escreve à sexta-feira, de 4 em 4 semanas.