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Artigo de Opinião

Presidente da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

22/06/2023 08:00

A IA envolve muitas questões, incluindo sobre privacidade, sobre controlo e quem a usa para controlar, sobre competências e desenvolvimento humano e sobre democracia. E, sem dúvida, tem um impacto no mundo do trabalho, em que, além da incorporação da IA nas ocupações, há empregos tornados redundantes e outros que ainda vão existir. Não se prevê que o balanço quantitativo entre criação e eliminação de empregos seja positivo.

Para além de aprender connosco, a grande mudança trazida pela IA, comparativamente às tecnologias anteriores, é poder tomar "decisões" autonomamente. É certo que foi programada por alguém e está ao serviço de algo - embora os engenheiros da Google não saibam como é que o Bard aprendeu birmanês sozinho. Estes traços distintivos da IA remetem para um campo vasto de implicações e enfatizam um potencial de grande transformação. Um potencial que não é apenas de perigo ou até de uma espécie de takeover à Humanidade e aos seus mecanismos de comunicação, como Yuval Harari recentemente referiu, mas que também pode contribuir para a nossa qualidade de vida - um exemplo é a descodificação da estrutura das proteínas feito pelo Deepmind, um avanço científico inestimável.

Algures entre um tecno-otimismo irrefletido e um tremendismo que inclui o medo de extinção reside um balanço entre riscos e potencialidades da IA. Alcançar este balanço exige a construção de uma infraestrutura da qual certamente fazem parte mecanismos de regulação, como de resto a UE começou a fazer. Mais do que regras que cubram todos os detalhes, o que seria uma tarefa sisífica face às frequentes novidades, é necessário um enquadramento social, político e institucional que defina parâmetros no campo da IA e do uso que lhe pode ser dado. Uma tarefa certamente muito exigente, começando desde logo pelo facto de o legislador conhecer muito menos as ferramentas de IA que os seus criadores!

Dessa infraestrutura faz parte também a promoção das competências que permitam a todos lidar melhor com esta realidade, não só as competências técnicas, mas sobretudo a cidadania e a literacia digital no campo da IA, as quais envolvem conhecimento, atitudes face ao tema e probabilidade de comportamentos mais adaptativos.

É essencial construir uma cultura de pensamento e identificar fatores de suscetibilidade e de proteção de indivíduos e comunidades, bem como discutir medidas para acomodar a eliminação de postos de trabalho sem a respetiva substituição. Teremos de criar mecanismos de compensação e garantia social? Como serão redesenhadas as profissões e vividos os equilíbrios vida pessoal-profissional devido à incorporação da IA?…

Na escala e proporção devidas, todos temos um papel nesta discussão e sobretudo na valorização, encorajamento e contribuição para uma ação consequente, que permita reduzir riscos e incorporar da melhor maneira possível a IA na nossa vida.

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