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Artigo de Opinião

PALAVRAS APENAS

13/01/2026 08:00

Entro no ano novo a pensar em poesia. Ou em esperança. Ou na esperança que a poesia, na definição de Adélia Prado me traz:

Poesia é o rasto

de Deus na

brutalidade das coisas

Penso no tempo que se escorre entre os dedos. Amanhã, já é dezembro, outra vez. Penso nas promessas feitas no momento em que o céu rebenta de fogo e as taças se abraçam, como se disso dependesse o futuro. Penso nos abraços e no brilho da noite que se ilumina como se a festa bastasse para esconder a escuridão.

Penso em poesia, sim, na que nos permite olhar para além de nós e ver que há lugares onde a brutalidade das coisas e dos homens teima em existir. Porque há guerras e fomes e vazios e gritos.

A poesia quer falar ao nosso ouvido, para nos contar que há outros meios de encontrar a luz. A poesia marca o compasso das dores e diz que não. Porque os poetas prometem lucidez, fazem memória com as palavras e não deixam que nos percamos do verdadeiro sentido das coisas.

A poesia não promete paraísos ao ano que está a entrar. Ela não apaga a brutalidade do mundo. Nem o desconcerto das coisas. Não promete a fuga às dores da humanidade. Promete, apenas, resistência, porque faz parte da lista de materiais para a salvação do mundo. Como a luz. Como a arte em geral. Como a inocência dos começos.

Num tempo de pressa, a poesia sossega e sussurra no meio dos gritos. Talvez por isso se faça escutar. Nos dias que correm, a poesia é quase subversiva, porque diz que, apesar de tudo, a beleza (ainda) respira e obriga-nos a sentir. Porque a poesia branda o tempo e dirige o nosso olhar para a importância das coisas vagarosas. Ela não muda o mundo, mas pode mudar o nosso olhar sobre ele e, às vezes, basta isso para devolver a esperança a quem a perdeu.

Precisamos muito dela no Ano Novo. Porque ela diz o que de outra maneira não se sabe dizer. Porque ela traz o silêncio. E dá sentido à impossibilidade.

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