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Artigo de Opinião

Gestora de Projetos Comunitários

23/09/2023 08:00

Há alguns dias, surgiu uma petição pública a exigir que se retirasse esta estátua da esfera pública. O Senhor Autarca do Porto, que declarou considerar a estátua "feia e de mau gosto", parece ter ficado satisfeito com a apresentação da petição, aproveitando o argumento de ter uma "petição com 37 signatários" para decidir retirar a estátua. Curiosamente, a petição, onde se lê "(...) pedir o favor higiénico de mandar desentulhar aquele belo largo de tão lamentável peça e despejá-la onde não possa agredir a memória de Camilo" não foi encarada como "de mau gosto" por este Senhor, apesar do teor da mesma. Felizmente, há uma nova petição pública, desta feita para manter a estátua de Camilo Castelo Branco, respeitando a herança cultural portuguesa - E são bem mais do que 37, os signatários. Polémicas à parte, tudo acabou em bem e o Autarca acabou por recuar na sua intenção de retirar a estátua.

Com isto, é inevitável recordar as palavras da Senhora Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome que, em 2012 (em plena crise), não conseguiu deixar de evidenciar o paternalismo que sempre incutiu à caridade - "Quando se atribui uma ajuda deste tipo [entrega de 125 euros a todos os cidadãos com receitas abaixo de 2700 euros], é importante fazer uma pedagogia e explicar às pessoas que não podem ir gastar estas verbas todas de uma só vez". É impressionante a falta de solidariedade e humanismo de quem se espera mais do que um juízo de valor, em particular quando a maioria dos portugueses só tinha "dinheiro para os alfinetes".

O que me leva à mais recente polémica sobre "almoços de trabalho" protagonizada pelo Senhor Autarca de Oeiras. A conjuntura atual é difícil para muitos portugueses. E Oeiras não será diferente. Mas, já diz o ditado, "enquanto há dinheiro, há amigos". 139 mil euros em "almoços de trabalho", com aquilo a que esse Senhor designou de "vinho banal" (que custa, em média, 55 euros a garrafa), chega a ser mais ofensivo do que as práticas de quem apregoa solidariedade, mas não a pratica. Toda a prática discursiva deste Senhor quando tenta banalizar os seus 1.441 almoços de sapateira, lagosta, lavagante, ostras ("o prato mais barato que há", segundo o próprio, e "um sacrifício enorme"), espelha o que de mais errado existe na nossa sociedade.

Camilo Castelo Branco viveu e escreveu na época dos amores proibidos e das tragédias românticas. Atualmente, a grande tragédia é testemunhar esta falta de consideração por quem pouco ou nada tem, acrescida desta vontade de apagar a História por repúdio de uma estátua que procura homenagear um dos autores mais conhecidos da literatura portuguesa. Não pelo que representa, mas pela nudez que apresenta, retirando-nos o direito, enquanto comunidade, ao sentido crítico, à escolha - se nos choca, não nos deveria fazer refletir? Não seria esse o principal objetivo desta obra?

Se nada disto o(a) incomoda, se calhar é tempo de começarmos a refletir sobre que futuro nos espera num mundo que não respeita a sua herança cultural, a sua identidade e direito individual de escolha e de opinião.

Por fim, quero deixar um abraço de solidariedade a Francisco Simões. Que a História nunca se apague.

OPINIÃO EM DESTAQUE
Coordenadora do Centro de Estudos de Bioética – Pólo Madeira
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