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Artigo de Opinião

Professor

31/07/2023 08:00

Era um ambiente pesado que não atraía as elites nem agradava a uma crescente juventude mais escolarizada. Em alternativa, esses procuravam os hotéis ou as discotecas e algumas festinhas temáticas de onde a espetada, o vinho seco e o dentinho tinham sido banidos. O arraial genuinamente popular, para um jovem instruído, nos anos setenta e oitenta, era um ambiente "foleiro".

Mas eis que o ensino universitário se democratizou e grande parte dos jovens passou a ter uma vivência académica de borgas, latadas e queimas, com música popular, de preferência pimba, e bebidas a preço da chuva. As discotecas e os hotéis deixaram de ser assim tão importantes.

Na Madeira, com este clima ameno, foi uma simbiose perfeita. Os jovens mais escolarizados, que dantes enjeitavam as seculares tradições, que faziam bico à sua mistura com os cotas dos tios e dos pais, esses rapazes e essas raparigas todas modernaças passaram a invadir tudo o que é festa popular ao ar livre. Exigem apenas três coisas: música com muitos decibéis, pode ser popular, pimba ou latino-americana, bebidas baratas e horários pela noite dentro.

As festas temáticas, que de início tinham como propósito se diferenciar dos arraiais populares, também foram atropeladas nesta avalanche modernista. Esqueçam a festa da espada, da banana, da anona, a festa do mar. Os nomes mudam, mas a festa é sempre a mesma. É o arraial moderno madeirense. Seja ele religioso ou profano. O que conta é o cartaz musical, normalmente pago pelo orçamento municipal, sendo que as autarquias não perderam a oportunidade de se juntar e até promoveram esta moderna exaltação social.

Não há nada de mal nestes eventos, antes pelo contrário. São momentos de lazer e correspondem aos gostos atuais, sendo que a nossa ilha é um excelente palco para essas realizações. O que merece reparo é a facilidade, e nalguns casos a vontade, com que os promotores das festas temáticas, governo, câmaras, juntas de freguesia ou casas do povo, aderiram a esta tendência. Um cheirinho de lapas aqui, um gostinho de espada acolá, uma vista de mar ali perto e depois: bom cartaz musical, bebidas e horário alargado. A festa é tanto melhor e mais famosa quanto maior for a verba gasta com artistas de renome.

E foi assim que, por vontade popular e por facilitismo da câmara, a Semana Gastronómica de Machico se foi transfigurando. Aquilo que outrora foi um cartaz distinto, acabou paulatinamente por se render ao novo modelo de festa-arraial popular. A qualidade gastronómica vai escasseando, os restaurantes de referência vão desistindo e o certame vai sendo invadido por rulotes e barracas de petiscos, farturas, bolos do caco mal cozidos, pão com chouriço e outros mimos da culinária low-cost. Ao que não faltam agora os carrinhos elétricos e outras velharias para divertimento de todas as idades.

Mas, se é assim a festa moderna. Se não há nada a fazer. Se é assim que o povo gosta. Então, vamos à festa!

OPINIÃO EM DESTAQUE
Coordenadora do Centro de Estudos de Bioética – Pólo Madeira
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