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Artigo de Opinião

Professora Universitária

19/09/2022 06:25

Habituada à altiva independência dos meus rendeiros alentejanos, que me tratam de igual para igual, confesso-te que fico enternecida, um pouco confusa, envergonhada também, quando um caseiro de Santa Cruz me deposita aos pés o seu cestinho d’ovos - nenhum aparece sem presente - com tamanhas genuflexões que, nem que eu fosse o Papa… E sempre de chapéu na mão: - "Senhora ama" para cá, "Senhora ama" para lá…"

Eis um excerto do "Diário" de Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino (1875-1945), obra a que a escritora queria dar o título de "Caminhos da Vida" e que ficou por publicar durante décadas, perdida entre baús de família e documentos por identificar. Está para breve a sua edição, apoiada pela Câmara Municipal da Calheta, e será uma lente privilegiada para observar a sociedade da época, os seus protagonistas e a atividade intelectual e artística das primeiras décadas do século XX. Isto porque à sua perspetiva privilegiada de grande escritora, ao uso da ironia que lhe é natural e lembra Eça de Queiroz, Luzia, como escolheu para pseudónimo, retrata com especial espírito crítico a Madeira.

Ao longo dos anos, como se verá no volume de cartas que escreveu a Fernanda de Castro até ao final da sua vida, e que é hoje tema de pós-doutoramento da Profa. Elaine Prado, Luzia apresenta um profundo amor pela Madeira, terra natal da sua mãe. Um amor que a faz sentir as felicidades e as dores de quem nela vive: da indiferença e da futilidade de muitos dos privilegiados e da pobreza e dependência do "povinho". Um "povinho" longe do "povo soberano", em que inclui os britânicos na Madeira e as famílias ilustres, às quais ela própria pertencia. A iliteracia em que o povo é mantido vale-lhe tiradas acusatórias que não poupam o que chama "falta de espírito" da comunidade cultural e intelectual: segundo a autora, depreende-se, também responsável pelo atraso das camadas mais baixas.

É interessante a sua comparação dos madeirenses, os colonos curvados em "genuflexões", com o povo alentejano, os seus rendeiros de "altiva independência". Muito se poderia dizer desta constatação. Estamos apenas nas primeiras décadas do séc. XX, longe dos movimentos políticos que atravessarão o Alentejo. A verdade é que Luzia se sentia envergonhada de não ser tratada de igual para igual, ainda que ao mesmo tempo experimente ternura pela modéstia dos mais pobres, que lhe trazem sempre presentes, ou que se sentem nessa obrigação.

Deveríamos pensar nesta diferença que faz entre colonos e rendeiros, entre os "povinhos" e de como sublinha a independência, o "igual para igual" dos alentejanos. Talvez explique muito hoje de uma iliteracia política e de uma submissão, de uma atitude de aceitação do que vem de cima, da crença quase absoluta do que se diz quando o que se declara tem origem na boca dos poderosos. Na aceitação das migalhas, na entrega de prendas pelas migalhas. Com essa iliteracia ainda herdámos muito da diferença entre "povo soberano" e "povinho", aprendeu-se a não protestar, porque falta o espírito e a "altiva independência" que cada um de nós deve ter, mesmo face a ambientes hostis.

Em 38, ao escrever a Fernanda de Castro, casada com o poderoso António Ferro, da Sociedade da Propaganda Nacional, Luzia, sabendo do perigo que corria, explica que nunca se converterá em fascista, porque preza a liberdade, a independência e não quer que ninguém lhe diga o que deve fazer ou pensar. Nunca fará o gesto fascista. Porque, como "povo soberano" ou "povinho", aprendera que no mundo há que lutar pela "altiva independência" e de ser tratada como igual. Escreveu estas palavras na Madeira e teria sido bom se as tivessem todos lido, porque essa é a verdadeira autonomia.

Luísa Antunes escreve à segunda-feira, de 4 em 4 semanas

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