O Marítimo está de regresso ao lugar onde quase todos sempre disseram que devia estar, mas poucos acreditaram que voltaria tão cedo.
Campeão da II Liga, retorna à primeira linha do futebol português com um título que entra diretamente na história do clube, ao lado das conquistas de 1976/77 e 1981/82 no mesmo patamar. Mas este regresso não é apenas desportivo. É, acima de tudo, uma resposta clara a meses – anos, até – de crítica fácil, ruído constante e, em muitos casos, destrutivo.
Convém não reescrever a história agora que a festa está montada. Houve um tempo, não tão distante, em que tudo era motivo de ataque. Cada decisão era errada antes sequer de produzir efeito.
Todos os passos eram contestados, muitas vezes por quem não apresentava alternativa, mas nunca deixava de apontar o dedo.
Viveu-se um ambiente de pressão quase permanente, em que trabalhar com tranquilidade era um luxo inexistente.
Dentro e fora, multiplicavam-se vozes dissonantes, muitas delas mais interessadas em protagonismo do que na estabilidade do clube. Assistimos a tudo isso, dia após dia, mas ainda assim, os adeptos nunca abandonaram o ‘caldeirão’.
A verdade, essa, é irrefutável. Carlos André Gomes construiu um projeto no meio de um ruído ensurdecedor.
Fê-lo sem ceder ao facilitismo, sem navegar ao sabor da crítica e, sobretudo, sem entrar no jogo de quem parecia desejar o fracasso para depois o poder comentar.
Hoje, os mesmos que questionavam tudo surgem diluídos na celebração coletiva. Estão mais silenciosos, mais discretos, como se o sucesso tivesse o poder conveniente de apagar o que foi dito.
Mas não apaga. Nem deve. Porque este título também serve para lembrar que o futebol e os clubes não se constroem ao ritmo da crítica permanente.
O sucesso do Marítimo assenta em decisões estruturais que foram, na altura, amplamente contestadas. Na escolha de um diretor desportivo, na aposta em treinadores estreantes, na construção de um plantel que muitos colocaram em causa. Hoje, esses mesmos elementos são apontados como trunfos. O denominador comum? A administração. A mesma que quiseram pôr a andar.
Não nos interpretem mal, atenção. A festa é de todos, como sempre deve ser. Mas há silêncios que dizem muito. E há memórias que não devem ser apagadas ao sabor das vitórias.
Este regresso do Marítimo à elite não é apenas uma conquista desportiva. É também uma lição sobre o peso das palavras, o valor da estabilidade e a coragem de abrir um caminho marítimo no meio do temporal.