Sarah Mullally foi hoje oficialmente empossada como arcebispa de Cantuária, celebrando publicamente a eleição como a primeira mulher a liderar a Igreja da Inglaterra, o que continua a causar polémica dentro da comunidade anglicana.
A entronização da ex-enfermeira oncológica, de 63 anos, que se tornou sacerdote aos 40 anos, decorreu na catedral de Cantuária, na presença do príncipe William e da mulher, princesa Catherine, do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, bem como de representantes do Vaticano e da Igreja Ortodoxa.
“Comprometo-me solenemente perante vós a servir a Igreja da Inglaterra, a Comunhão Anglicana e toda a Igreja de Cristo em todo o mundo, para que, juntos, proclamemos o Evangelho de Cristo, que nos reconcilia com Deus e derruba os muros que nos dividem”, declarou ao prestar juramento.
Sarah Mullally chegou a Cantuária, no final de uma peregrinação a pé de vários dias desde a catedral de São Paulo, em Londres.
Na cerimónia, que marca o início do mandato como chefe da Igreja da Inglaterra e líder espiritual da Comunhão Anglicana mundial, estiveram também representantes de muitas das 42 igrejas anglicanas.
A Comunhão é uma associação de igrejas independentes, incluindo a Igreja Episcopal nos Estados Unidos, que, juntas, contam com mais de 100 milhões de membros.
A celebração marca um marco importante para a Igreja da Inglaterra, cujas raízes remontam ao ano de 597, quando o papa enviou Santo Agostinho à Grã-Bretanha para converter a população ao cristianismo.
O emissário é reconhecido como o primeiro arcebispo de Cantuária.
A Igreja da Inglaterra separou-se da Igreja Católica Romana na década de 1530, durante o reinado de Henrique VIII.
A igreja ordenou as primeiras mulheres sacerdotes em 1994 e a primeira bispa em 2015.
“Ao olhar para trás, para a minha vida – para a adolescente Sarah, que depositou a sua fé em Deus e se comprometeu a seguir Jesus –, nunca poderia ter imaginado o futuro que me esperava, e muito menos o ministério para o qual sou agora chamada”, afirmou Mullally no sermão.
A nova arcebispa de Cantuária inicia o mandato num momento difícil para a Igreja da Inglaterra e a Comunhão Anglicana.
A nomeação de Mullally aprofundou as divisões dentro da Comunhão Anglicana, cujos membros estão em desacordo em questões como o papel das mulheres e o tratamento das pessoas LGBTQ+.
Mullally terá também de enfrentar as preocupações sobre os escândalos de abusos sexuais que têm assombrado a Igreja e causado conflitos há mais de uma década.
No sermão, sentada no trono de pedra (datado do século XIII) de Santo Agostinho, pediu desculpa pela “dor sentida por aqueles prejudicados pelas ações, omissões ou falhas de membros das comunidades cristãs”.
“Hoje, e todos os dias, mantemos as vítimas e os sobreviventes nos nossos corações e nas nossas orações, e devemos permanecer comprometidos com a verdade, a compaixão, a justiça e a ação”, acrescentou.
Mullally substitui o ex-arcebispo Justin Welby, que anunciou a demissão em novembro de 2024, depois de ter sido criticado por não ter agido de forma decisiva e não ter comunicado à polícia as alegações de abuso físico e sexual por parte de um voluntário num acampamento de verão afiliado à Igreja.
Nascida em Woking, a sudoeste de Londres, em 1962, Mullally frequentou escolas locais e trabalhou como enfermeira no serviço de saúde britânico até ser nomeada diretora de enfermagem da Inglaterra aos 37 anos, a pessoa mais jovem de sempre a ocupar o cargo.
Enquanto ainda exercia essa função, começou a formar-se para exercer o ministério.
Foi nomeada bispa em 2015, tornando-se a quarta mulher na Igreja da Inglaterra a alcançar o cargo e, três anos depois, bispa de Londres, funções que ocupou até janeiro, quando foi confirmada arcebispa de Cantuária.