As instituições norueguesas estão a ser abaladas pela associação de figuras da Casa Real, como a princesa herdeira, do Comité Nobel, além de um ex-primeiro-ministro e um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, ao escândalo do caso Epstein.
A publicação, na sexta-feira, de mais de três milhões de ficheiros relacionados com o milionário e criminoso sexual condenado norte-americano Jeffrey Epstein está a causar consternação na Noruega, sobretudo pela implicação da princesa herdeira, Mette-Marit, que já pediu desculpa pelo “erro de julgamento” que teve ao trocar dezenas de e-mails com um abusador de crianças.
Segundo os documentos publicados, Mette-Marit manteve uma estreita amizade com Epstein durante vários anos, chegando a visitar o magnata na sua luxuosa residência em Palm Beach, na Florida, durante quatro dias no início de 2013, e a oferecer-lhe conselhos sobre como “encontrar uma mulher”.
A Casa Real pediu desculpa em 2019 pelos contactos entre Epstein e a princesa herdeira, alegando desconhecer o seu passado e alegando que as comunicações entre ambos tinham cessado em 2013, em parte porque o financeiro norte-americano estava a “tentar aproveitar-se” da relação.
No entanto, Mette-Marit admitiu, num e-mail enviado ao criminoso sexual — divulgado na sexta-feira — que o tinha pesquisado no Google para saber mais sobre o caso.
A divulgação dos e-mails deixa claro que a relação entre os dois era próxima, uma vez que a princesa herdeira partilhava confidências sobre a sua família, recomendava livros, trocavam felicitações de aniversário e discutiam problemas de saúde, incluindo questões sobre branqueamento de dentes.
Mette-Marit admitiu ter “demonstrado falta de discernimento” e disse que deve “assumir a responsabilidade por não ter investigado melhor o seu passado e por não ter compreendido com a rapdez necessária o tipo de pessoa era”.
O escândalo surge poucos dias antes do início do julgamento do filho da princesa, Marius Borg Hoiby, que vai comparecer na terça-feira em tribunal, acusado de 38 crimes, incluindo quatro violações e violência doméstica contra a ex-companheira.
A princesa herdeira não é, no entanto, a única figura pública da Noruega envolvida no escândalo.
O nome do antigo primeiro-ministro Thorbjørn Jagland, atual membro do Partido Trabalhista e então secretário-geral do Conselho da Europa e presidente do Comité do Nobel, também aparece nos arquivos de Epstein.
“Estive em Tirana [Albânia]. Algumas raparigas extraordinárias. Vou à Jordânia, à Palestina e a Israel. Regresso na quinta-feira”, lê-se num e-mail datado de 25 de maio de 2012, enviado a Epstein por Jagland, que planeava então visitar a ilha do magnata com a sua família.
Os documentos revelam ainda conversas entre os dois homens sobre empréstimos para a compra de imóveis e outras mensagens privadas, mas Jagland garantiu que os contactos faziam parte da sua “atividade diplomática normal”.
Fontes do Conselho da Europa confirmaram ao jornal Verdens Gang que Epstein visitou a residência de Jagland em Estrasburgo pelo menos duas vezes e que Jagland se hospedou nas casas do magnata em Paris e Nova Iorque em diversas ocasiões.
O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega e presidente do Fórum Económico Mundial desde 2017, Børge Brende, também surge nos documentos, em trocas de mensagens e e-mails com Epstein que demonstram a existência de uma relação amigável até pouco antes da detenção do pedófilo norte-americano, em 2019.
O ex-ministro também declarou recentemente que desconhecia o passado criminoso de Epstein e lamentou não o ter investigado mais a fundo.
Outros nomes que surgem nos arquivos são os do vice-presidente do Comité do Nobel, Asle Toje, do diplomata e ex-diretor do Instituto para a Paz Terje Rod-Larsen -- que admitiu ter tido uma relação financeira com Epstein — e o da sua mulher, Mona Juul, antiga embaixadora da Noruega nas Nações Unidas.