Várias organizações não-governamentais (ONG) alertaram hoje para a deterioração da situação humanitária em Gaza, num contexto marcado pela decisão do Supremo israelita de apoiar a ordem do executivo para expulsar 35 associações que atuam em territórios palestinianos.
O presidente da Refugees International, Jeremy Konyndyk, afirmou numa conferência de imprensa na sede da ONU, em Nova Iorque, que a implementação do acordo de paz “continua incompleta” e que “pessoas ainda estão a morrer hoje em níveis inaceitáveis”.
Konyndyk criticou “qualquer restrição ou bloqueio à ajuda humanitária”, referindo-se à decisão do Supremo Tribunal de Israel, argumentando que a mesma “não tem fundamento legal e constitui uma violação do Direito internacional”, uma vez que a assistência não pode ser condicionada a concessões políticas.
A ordem de expulsão, anunciada em 30 de dezembro de 2025, estipulava que as ONG deveriam fornecer às autoridades do país “informações completas e verificáveis sobre os seus funcionários”, acusando estas organizações de terem “pessoas afiliadas” a elas ligadas a organizações islamistas palestinianas.
A decisão do Supremo Tribunal concede às organizações 30 dias para se adequarem ao novo procedimento de registo.
Enquanto isso, a presidente e diretora-executiva da Oxfam América, Abby Maxman, assinalou que antes “jornalistas e trabalhadores humanitários podiam fazer o seu trabalho”, mas agora vive-se “um momento profundamente preocupante para os princípios e padrões que todos procuram defender”.
“O Direito internacional humanitário não deve ser submetido ao nível de obstrução que estamos a ver. Estamos a testemunhar como os bloqueios administrativos, os registos e os processos legais estão a começar a expandir-se cada vez mais a nível global”, enfatizou.
Observou ainda que, seis meses após o cessar-fogo, as condições em Gaza permanecem “catastróficas” e que nem o plano de paz de 20 pontos promovido pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, nem as resoluções do Conselho de Segurança, estão a ser implementados.
“As famílias não conseguem dormir sem medo, alimentar os seus filhos, ter acesso a água potável ou atendimento médico. Nesse sentido, o cessar-fogo está a fracassar”, afirmou Abby Maxman.
A representante da Oxfam denunciou as restrições à entrada de produtos essenciais, incluindo materiais para reparação de sistemas de água, abrigos e equipamentos médicos.
Da mesma forma, a presidente e diretora-executiva da Save the Children EUA, Janti Soeripto, alertou para o “grave impacto nas crianças”, com “níveis crescentes de desnutrição aguda em algumas áreas e o colapso da infraestrutura básica”.
Entretanto, o Conselho de Segurança da ONU realizou hoje uma sessão sobre a situação em Gaza, na qual Nickolay Mladenov, o alto representante do Conselho de Paz para Gaza, promovido por Donald Trump, apresentou o relatório semestral sobre a implementação do plano para pôr fim ao conflito no enclave palestiniano.
Mladenov apelou a Israel para que cumpra as suas obrigações ao abrigo do acordo para a reconstrução da Faixa de Gaza e afirmou que o cumprimento por parte dos palestinianos, por si só, não é suficiente.
Instou ainda o grupo islamita palestiniano Hamas a entregar as suas armas.
Durante a sessão, o representante adjunto de Israel na ONU, Jonathan Miller, condicionou o processo de reconstrução de Gaza ao desarmamento do Hamas, após o embaixador palestiniano, Riyad Mansour, ter afirmado que o acordo alcançado entre as partes exigia esforços iguais.
Pelo menos 883 palestinianos foram mortos em Gaza por ataques israelitas durante o cessar-fogo, segundo um relatório divulgado hoje pelo Ministério da Saúde de Gaza. Outros 2.648 ficaram feridos.