A NATO vai realizar exercícios militares no Ártico nos próximos meses, região que a Aliança Atlântica considera de “importância estratégica”, e num contexto de intensificação da cooperação entre a Rússia e a China naquela zona, foi hoje divulgado.
Numa conferência de imprensa em Bruxelas, o presidente do Comité Militar da Aliança Atlântica, o almirante Giuseppe Dragone, afirmou que os chefes do Estado-Maior dos 32 aliados da NATO, que estiveram reunidos na capital belga, discutiram os “desafios de segurança sem precedentes” que a organização enfrenta, incluindo os relacionados com a região ártica.
“Discutimos o Ártico, naturalmente, uma região de importância estratégica para a NATO, onde já temos exercícios militares e atividades de treino planeadas para os próximos meses”, informou Dragone.
O almirante sublinhou que a Aliança se mantém “firme” na salvaguarda da segurança de “mais de mil milhões de pessoas em toda a área euro-atlântica”.
Dragone destacou que a importância do Ártico para a NATO se tornou ainda mais evidente com a adesão recente da Finlândia e da Suécia, dois países com território na região anteriormente neutros.
O líder do Comité Militar, a principal fonte de conselhos militares da Aliança, garantiu que os exercícios não terão lugar na própria Gronelândia, mas sim no conjunto da região ártica, observando que o NORAD - comando conjunto dos Estados Unidos e do Canadá - já está atualmente a realizar operações na zona.
Dragone acrescentou que, caso a NATO seja incumbida de novas missões de vigilância no Ártico, dispõe de “capacidade suficiente” para responder às necessidades, em particular nos domínios marítimo e aéreo.
O almirante informou ainda que a Aliança está a preparar-se para reforçar a sua capacidade de operar em condições climáticas extremas, incluindo através da aquisição de novos quebra-gelos.
O presidente do Comité Militar revelou igualmente que estão em estudo projetos a longo prazo, como a instalação de novos sensores e capacidades de deteção no Ártico.
Questionado sobre o princípio de acordo alcançado na quarta-feira entre o Presidente norte-americano, Donald Trump, e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, envolvendo a Gronelândia, Dragone respondeu que se trata de uma fase “muito inicial” do processo.
“Sabemos que foi estabelecida uma estrutura entre a Gronelândia, a Dinamarca e os Estados Unidos, mas ainda aguardamos instruções”, explicou Dragone, sobre as conversações mantidas na quarta-feira à margem do Fórum de Davos, na Suíça.
O almirante pediu “calma” aos gronelandeses quanto à possibilidade de um conflito entre aliados, referindo que está em curso “um debate político” e que se procura “a melhor solução para todos”.
“Mil milhões de cidadãos em toda a Aliança, incluindo os da Gronelândia, podem contar com o nosso compromisso coletivo com o artigo 5.º, que se mantém inabalável”, assegurou Dragone.
O artigo 5.º da NATO expressa que os países signatários concordam que um ataque armado contra um ou vários desses países será considerado um ataque a todos.
Já hoje, Mark Rutte explicou que a soberania dinamarquesa sobre a Gronelândia não foi discutida na reunião com Donald Trump, mas apenas a necessidade de “proteger esta vasta região do Ártico”, onde a China e a Rússia estão cada vez mais ativas.
Giuseppe Dragone apontou como uma das “mudanças mais preocupantes” o reforço da cooperação entre Moscovo e Pequim na região.
“Estão a ser realizadas patrulhas conjuntas no mar e no ar, incluindo com bombardeiros de longo alcance, e essa atividade conjunta está claramente a aumentar”, alertou o almirante, acrescentando que as alterações climáticas estão a abrir novas rotas marítimas no Ártico, tornando o controlo da região um desafio estratégico crescente.
“A região é muito importante para a NATO e para os países que dependem da dissuasão, porque o degelo está a alterar rapidamente o acesso a esta área”, concluiu Dragone.