A organização não-governamental Human Rights Iran (HRINGO) aumentou hoje para 734 mortes verificadas nos protestos antigovernamentais no Irão, mas admite que o número real pode atingir milhares, como já indicam outras estimativas entretanto divulgadas.
Entre as mortes ocorridas em 15 províncias e atribuídas às forças estatais, que a organização não-governamental (ONG) verifica com base em confirmações diretas e relatórios médicos e de morgues, encontram-se 12 crianças e seis mulheres, tendo sido ainda registados milhares de feridos.
O anterior balanço da ONG com sede na Noruega, divulgado na segunda-feira, dava conta de 648 manifestantes mortos em 14 províncias no Irão desde 28 de dezembro, data do início da nova vaga de protestos contra as autoridades de Teerão.
“A HRINGO continua a receber relatos de milhares de mortos em diferentes cidades e províncias do Irão”, segundo um comunicado divulgado no seu ‘site’, apesar de não conseguir confirmar ainda a escala destes números, que a emissora Iran International coloca por sua vez em mais de 12 mil.
“Com base nos dados disponíveis e na verificação de informações obtidas de fontes fidedignas, incluindo o Conselho Supremo de Segurança Nacional e o gabinete presidencial, a estimativa inicial das instituições de segurança da República Islâmica é de que pelo menos 12.000 pessoas foram mortas neste massacre em todo o país”, indicou a emissora multilingue por satélite, com sede em Londres, na sua página ‘online’.
A HRINGO observou, no entanto, que, devido ao bloqueio total da Internet no país desde a noite de quinta-feira e às “severas restrições no acesso à informação”, a verificação independente destes números “é extremamente difícil”.
O diretor da ONG, Mahmood Amiry-Moghaddam, ressalvou que os seus números dizem respeito a informações recebidas a partir de metade das províncias do país e de menos de 10% dos hospitais.
“O número real de mortos chega provavelmente aos milhares. Como o Governo não pode ocultar um número tão elevado de mortes, é forçado a atribuir este massacre a agentes estrangeiros”, condenou o responsável citado no comunicado.
A HRINGO também estima que o número de detidos ultrapassou os 10.000 e disse ter recebido relatos de que “muitos dos mortos, alguns dos quais inicialmente feridos por balas de borracha, acabaram por falecer depois de terem sido atingidos na cabeça ou no pescoço”.
Os números de mortos variam conforme as estimativas de cada organização, com a Human Rights Activists Newes Agency (HRANA), com sede nos Estados Unidos, a indicar, por seu lado, 2.003 vítimas, das quais 1.850 eram manifestantes, 135 elementos ligados às autoridades, nove menores e outros nove sem envolvimento nos protestos.
Skylar Thompson, da Human Rights Activists News Agency, comentou à agência Associated Press (AP) que este balanço é chocante, sobretudo porque atingiu em apenas duas semanas quatro vezes o número de vítimas dos protestos após a morte de Mahsa Amini em 2022, quando estava sob custódia da “polícia da moralidade”.
“Estamos horrorizados, mas ainda achamos que o número é conservador”, declarou.
A televisão estatal iraniana reconheceu hoje pela primeira vez um elevado número de mortes, afirmando que foram registados “muitos mártires”.
Um apresentador leu uma declaração que dizia que “grupos armados e terroristas” levaram o país “a entregar muitos mártires a Deus”, embora sem detalhar qualquer número.
Os meios de comunicação social estatais noticiaram que pelo menos 121 membros das forças militares, policiais, de segurança e judiciais da República Islâmica morreram durante os protestos, segundo a HRINGO.
“Mais uma vez (...) a Human Rights Iran apela para uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para a adoção de medidas urgentes para proteger os cidadãos iranianos dos assassínios cometidos pela República Islâmica”, destacou a organização.
O Irão está a ser agitado por uma nova vaga de protestos desde 28 de dezembro, iniciada em Teerão por comerciantes e setores económicos afetados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, alastrando-se depois a mais de 100 cidades do país.
A taxa de inflação anual é superior a 42% e, durante o ano passado, o rial perdeu 69% do seu valor face ao dólar, num contexto em que a economia foi fortemente atingida pelas sanções dos Estados Unidos e da ONU devido ao programa nuclear de Teerão.
As autoridades iranianas receberam inicialmente com compreensão os protestos, mas entretanto endureceram a sua posição e repressão contra os manifestantes, que passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel, a que se juntaram entretanto relatos de condenações à morte de manifestantes detidos.
No seguimento da divulgação de vários balanços com elevados números de mortos nos protestos, o Presidente norte-americano, Donald Trump, escreveu hoje na sua rede social Truth Social: “Patriotas iranianos, continuem a protestar – tomem o controlo das vossas instituições”.
Ao mesmo tempo, disse ter cancelado os seus contactos com as autoridades iranianas “até que o assassínio sem sentido de manifestantes pare” e referindo, sem precisar, que “a ajuda está a caminho”.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, em declarações à estação televisiva Al-Jazeera, financiada pelo Qatar, disse na noite de segunda-feira, disse que continuava em contacto com o enviado da Casa Branca, Steve Witkoff.
No entanto, após a mensagem do Presidente norte-americano de hoje, o principal responsável de segurança iraniano, Ali Larijani, afirmou: “Declarámos os nomes dos principais assassinos do povo do Irão: 1- Trump, 2- O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu”.