A França apontou hoje a "trajetória muito preocupante" da política nuclear do Irão, após um relatório da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA) ter detetado a existência de partículas de urânio enriquecido a mais de 80 por cento.
"Este relatório mostra uma trajetória muito preocupante do Irão que não tem justificação", disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, das Relações Exteriores Anne-Claire Legendre, referindo-se a "um desenvolvimento sem precedentes e extremamente sério".
Na sequência da recolha, em janeiro, de amostras na fábrica subterrânea de Fordo, indicou o órgão da ONU num relatório, a AIEA detetou partículas de urânio enriquecido a 83,7% no Irão, pouco abaixo dos 90% necessários para produzir uma bomba atómica.
A AIEA afirmou ser difícil poder afirmar nesta fase se essa percentagem foi atingida acidental ou deliberadamente.
O Irão, numa carta citada pela AIEA, insistiu na ideia de que não tem qualquer intenção de construir armas atómicas e reportou "flutuações involuntárias" durante o processo de enriquecimento.
O diretor-geral da agência, Rafael Grossi, tem previsto encontrar-se sábado com o Presidente iraniano, Ebrahim Raisi, em Teerão para "relançar o diálogo".
"O relatório também menciona a impossibilidade de a AIEA estabelecer a continuidade do conhecimento sobre o programa nuclear iraniano", acrescentou a porta-voz da diplomacia francesa.
"Expressamos o nosso total apoio à agência nos esforços para obter todos os esclarecimentos do Irão, cujo cumprimento com as suas obrigações internacionais está em jogo", frisou Legendre.
Dependendo dos avanços da deslocação de Grossi ao Irão, os Estados Unidos e o ‘E3’ (Reino Unido, França e Alemanha) decidirão se vão apresentar ou não um projeto de resolução ao Conselho de Governadores da AIEA, agendado para a próxima semana em Viena.
O Irão já tinha sido alvo de uma chamada de atenção na última reunião do Conselho de Governadores, em novembro de 2022, pela falta de cooperação face à deteção de vestígios de urânio enriquecido encontrados em três locais não declarados.
A deslocação de Grossi realiza-se com base num "convite oficial" da Organização Iraniana de Energia Atómica (OIEA), anunciou o porta-voz da própria instituição, Behrouz Kamalvandi, citado pela agência noticiosa oficial Irna.
"Esperamos que esta visita crie a base para uma maior cooperação e um horizonte mais claro entre o Irão e a AIEA", acrescentou.
Na passada quarta-feira, o Irão anunciou que, em breve, representantes da AIEA iriam a Teerão para resolver "ambiguidades" ligadas à informação de que os inspetores da agência da ONU tinham detetado urânio com níveis de enriquecimento de 84%, pouco menos dos 90% necessários para produzir uma bomba atómica.
Teerão negou a informação, garantindo que, atualmente, não fez "qualquer tentativa de enriquecer [urânio] acima de 60%".
Este limite é, no entanto, muito superior ao de 3,67% estabelecido pelo acordo nuclear concluído em 2015.
"Nos últimos dias, tivemos discussões construtivas e promissoras com a delegação da AIEA presidida por Massimo Aparo [adjunto de Rafael Grossi]", afirmou hoje Kamalvandi.
Em janeiro passado, o diretor-geral da AIEA manifestou-se "preocupado com a trajetória" do programa nuclear iraniano.
Desde a retirada unilateral dos Estados Unidos, em 2018, do acordo de 2015 entre as grandes potências e o Irão para limitar as atividades nucleares em troca do levantamento das sanções internacionais, a República Islâmica, que tem sempre negado pretender adquirir ou produzir uma bomba atómica, tem posto gradualmente cobro aos compromissos exigidos pelo pacto.
As negociações para retomar o acordo, que recomeçaram em abril de 2021, pararam na sequência das crescentes tensões entre o Irão e as principais potências ocidentais.
Lusa