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Sara Barros Leitão: “Procurar uma vida melhor é um direito fundamental”

Data de publicação
31 Janeiro 2026
12:30

A tragédia ‘Suplicantes’, de Ésquilo, escrita há cerca de 2.500 anos, é um dos muitos textos que atravessam séculos sem perder a capacidade de nos encarar de frente. Este sábado, às 19 horas, no Teatro Municipal Baltazar Dias, a peça sobe a cena numa reescrita contemporânea de Sara Barros Leitão, como um gesto artístico que convoca o passado clássico para pensar, com rigor e inquietação, as migrações, as fronteiras e as políticas de acolhimento que atravessam o presente europeu.

Apresentado pela companhia Cassandra, o espetáculo chega ao Funchal depois de um percurso marcado pela circulação e pelo confronto com públicos diversos. “Um dos privilégios de fazer um espetáculo muitas vezes e em muitos sítios diferentes é o facto de ele poder ir crescendo, ficando mais sólido, mais maduro”, sublinha a criadora e encenadora, em declarações ao JM, acrescentando que cada território acrescenta novas camadas de leitura. No caso da Madeira, essa relação ganha uma espessura particular, uma vez que a condição insular, a história de partidas e chegadas, de travessias e diásporas, tornam o tema das migrações “especialmente caro aos madeirenses”, o que, acredita, poderá intensificar a relação do público com a obra.

Num contexto atual, Sara Barros Leitão não ignora o crescimento da extrema-direita na Região, nem o peso que o discurso anti-imigração tem assumido no espaço público. “Sendo o ódio contra os imigrantes um dos grandes temas trazidos por esse partido, e tendo esse partido cada vez mais apoiantes nesse território, estou também curiosa para ver como vai o público reagir”, admite. A apresentação de ‘Suplicantes’ neste preciso momento político faz com que, inevitavelmente, o teatro se cruze com a realidade que o rodeia.

A partir da história das cinquenta irmãs que fogem do Egito para escapar a um casamento forçado e atravessam o Mediterrâneo em busca de asilo, a criadora opta por um “afastamento ficcional” que recusa a simples reprodução de casos reais, com o objetivo de pensar o fenómeno migratório de forma estrutural. “Quero que se discuta o tema de forma sistémica, que se entenda que as dificuldades que as migrações trazem não são casos pontuais”, explica. A ficção, neste contexto, torna-se uma ferramenta para ampliar o debate, libertando-o do imediato e do episódico.

Essa opção dialoga diretamente com a sua própria relação com o texto de Ésquilo, lido pela primeira vez na adolescência. Já então, recorda, as imagens de barcos no Mediterrâneo ocupavam os telejornais e mobilizavam a emoção coletiva. “Parecia-me extraordinário alguém ter escrito um texto há tantos séculos sobre pessoas que atravessam o mar Mediterrâneo num barco e desaguam na Grécia a pedir asilo”, lembra. Com o passar dos anos, a perceção aprofundou-se, sendo que as migrações deixaram de lhe surgir como uma “crise” para se afirmarem como um traço constitutivo da humanidade. “Migrar, deslocarmo-nos, procurar uma vida melhor, é algo inato ao ser humano e é um direito absolutamente fundamental”, afirma, lembrando ainda a responsabilidade histórica da Europa na exploração do Sul global.

Em cena, ‘Suplicantes’ constrói-se em dois tempos. Num primeiro momento, a peça aproxima-se de forma mais direta da contemporaneidade. Muitas das frases ouvidas em palco pertencem a responsáveis políticos portugueses do espaço social-democrata, uma escolha deliberada que dispensa a caricatura da extrema-direita. “Hoje em dia, o discurso deste governo em relação à imigração é tão sectário e radical que, quando colocado num palco, percebemos como pode ser chocante”, observa. Só depois se abre espaço para a entrada mais explícita da tragédia clássica, trazendo consigo uma dimensão simbólica e ritual que reconfigura a experiência teatral.

  • Sara Barros Leitão, criadora e encenadora de ‘Suplicantes’.
“O discurso deste governo em relação à imigração é tão sectário e radical que, quando colocado num palco, percebemos como pode ser chocante.”

Este diálogo entre criação artística e pensamento crítico inscreve-se numa linha de continuidade no percurso da Cassandra. Fundada em 2020 e dirigida por Sara Barros Leitão, a companhia tem afirmado uma prática de criação original, sempre em relação estreita com o mundo contemporâneo. Se em ‘Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa’ o ponto de partida foi o arquivo, e em ‘Guião para um país possível’ os Diários da Assembleia da República, em ‘Suplicantes’ o desafio passou por desmontar uma tragédia, apropriar-se do que interessa e imaginar uma nova ficção verosímil. “Em todos eles interessa-nos estar em permanente diálogo com o que se passa no mundo e com o que nos inquieta”, resume, acrescentando que, em última instância, “o teatro deve ser livre para criar o que quiser”.

Apesar da força política do espetáculo, a encenadora recusa atribuir ao teatro uma função normativa, considerando, questionada pelo JM, que o teatro “não deve desempenhar nenhuma função”. Ainda assim, reconhece-lhe a capacidade de alargar horizontes, promover o pensamento crítico e lembrar que o mundo “é maior e mais diverso do que o que vemos da janela”.

Em palco, Lígia Roque, Ricardo Vaz Trindade e Sandro Feliciano dão corpo a esta reflexão coletiva, apoiados por uma equipa artística e técnica que integra, entre outros, Nuno Meira no desenho de luz, João Oliveira na sonoplastia e F. Ribeiro na cenografia.

Associada à apresentação do espetáculo, que ainda tem bilhetes disponíveis, o TMBD promove em simultâneo uma oficina pop-up de gastronomia de outros lugares do mundo, dirigida a crianças dos sete aos 14 anos, uma proposta de mediação cultural que prolonga os temas da peça para uma experiência prática de partilha e encontro.

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