Grande amizade

Um dos velhos chama-se Verónico Cornélio e o outro Merlim, dois nomes improváveis para quem nasceu aqui, na ilha, mas assim consta dos seus documentos de identificação, cuja validade é vitalícia. Neste momento, o senhor Verónico Cornélio e o senhor Merlim estão a rir a bandeiras despregadas – o primeiro debruçado para a frente, a bater com a mão direita em punho no tampo da mesa, o outro inclinado para trás, com as costas apoiadas no espaldar da cadeira, a boca aberta virada para o céu e a mão esquerda a dar palmadas na perna desse lado.

– Enfim – diz o senhor Verónico Cornélio. – O mundo não é perfeito.

– Felizmente nunca foi! – Responde o outro.

E tornam a rir com vontade, um já com falta de ar, outro quase a chorar. A galhofa mete vários socos na mesa e várias palmadas na perna.

Pelo meio, o senhor Verónico Cornélio ainda consegue dizer:

– Eu acredito que o ser humano pode ser feliz sem dinheiro e sem sucesso.

E o senhor Merlim acrescenta:

– Eu também acredito na construção do mundo sem parafusos.

Explodem outra vez em altas gargalhadas e só conseguem parar ao cabo duns cinco minutos, ambos com as bochechas roxas e inchadas de tanto riso. Fazem uma pausa, bebem um golo de vinho e, de repente, mudam de assunto.

O senhor Verónico Cornélio diz assim:

– Sempre achei disparatada a forma como o Cabral do Nascimento se refere ao autor de Saudades da Terra, criticando-o por misturar factos de suma importância, diz ele, com outros de natureza anedótica, aos quais, no entanto, presta muita atenção e dá rédea solta à pena. O gajo ficou escandalizado com isto.

O senhor Merlim encolhe os ombros e o outro continua:

– Às vezes acordo a meio da noite a pensar nisto e pergunto-me o que diria ele nos dias de hoje, em que a história se faz quase toda na porcaria das redes sociais?

O senhor Merlim levanta o braço e diz:

– Atenção!

Quando o assunto é sério, o senhor Merlim usa e abusa desta expressão. Foi um hábito que adquiriu na guerra do ultramar, em que passou muito tempo a gritar “Atenção!”, por causa do perigo de morte constante. Depois, mesmo estando longe das matas africanas, continuou a dizê-lo no arranque de todas as frases quando o tema da conversa o perturba.

– Atenção! Que dirão de nós os rapazes do futuro? – Pergunta. – Que dirão eles sobre estes dois velhos que nunca tiveram conta nas redes sociais e que se afastavam dessas coisas como o azeite da água?

Agora, quem encolhe os ombros é o senhor Verónico Cornélio e o outro continua:

– Atenção! A gente ainda consegue enganar os miúdos de hoje porque estamos vivos, mas os do futuro, aqueles que virão depois da nossa morte, já não os poderemos enganar. E eles vão dizer de nós o mesmo que tu pensas do Cabral do Nascimento. Vão dizer que éramos uns tontos, não ligávamos nenhuma ao colorido do quotidiano, só estávamos interessados em grandes acontecimentos cinzentos.

O senhor Verónico Cornélio esboça um sorriso e o sorriso enche-lhe a cara de rugas, como acontece ao espelho de água dos lagos ao ser tocado pelo vento.

– Talvez tenhas razão – consente. – Se o doutor Gaspar Frutuoso fosse um homem do nosso tempo, provavelmente seria um fanático das redes sociais e o título da sua obra, em vez de Saudades da Terra, seria Saudades da Internet.

Os dois velhos abanam a cabeça que sim e, neste preciso momento, apresenta-se diante deles o empregado de mesa. Pedem mais dois copos de vinho e, subitamente, desatam às gargalhadas.